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domingo, 25 de fevereiro de 2018

(Des)acordo



Inês Lourenço
citada por António Barahona
in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea,
Lisboa, Averno, 2011

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

António Barahona


MEMÓRIA DE AMOR


I

A memória descreve 
o nosso primeiro encontro
no palco dum teatro:
eu, com um cão debaixo do braço;
e tu, à espera que eu me risse
para me veres os dentes.


[...]


IV
(Directas)

Ainda não havia televisão a côres.
Todas as noites, víamos a série d'O Fugitivo.
Às vezes, bebíamos café e passávamos o resto
da noite a fumar e a conversar.
Não tínhamos pressa.
A paixão defendia-nos do tempo.

Saíamos, eternos, ao clarear do dia,
para comprar peixe na lota do Cais-do-Sodré
e tomar o pequeno almoço na cantina.

Não tínhamos nenhuma pressa.
A paixão defendia-nos do tempo.
Voltávamos, eternos, para casa.

14.VII.013


- in Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus, 
Lisboa: Averno, 2015

quinta-feira, 18 de abril de 2013

"Haverá uma beleza que nos salve?"


Não é a beleza que salva, mas, sim, a arte da beleza: a Poesia, gramática da nudez concisa.


- António Barahona, As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013



*



«HAVERÁ UMA BELEZA QUE NOS SALVE?»


Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, «mais vale burro vivo do que sábio morto». Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão «renúncia às coisas inúteis e partilha» («renonce aux choses inutiles et partage», in Famille chrétienne,Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar --mas será involuntariamente? -- bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença.


- Adília Lopes, Le Vitrail La Nuit/A Árvore Cortada, 
Lisboa: &etc, 2006

terça-feira, 2 de abril de 2013

António Barahona



XI

A humanidade não me importa muito, nem pouco, nem nada: o meu próximo, sim, importa-me tudo, na tentativa de nele amar o Todo. A humanidade é uma abstracção de políticos e filósofos ateus, nazis, comunistas, tecnocratas, etc., que pretendem transformar o mundo num campo de concentração global, povoado, na sua maioria, por uma espécie de canalha, dependente de máquinas (cada vez mais sofisticadas) e desligada do transcendente por incapacidade mental.
O meu próximo é concreto, como este texto que exprime, letra a letra, o espírito do que digo.
O Profeta Jesus (que a paz esteja com ele), o Sêlo da Santidade, quando multiplicou os peixes e os pães, mandou a multidão repartir-se em grupos; e, aos grupos, mandou que dividissem, entre si, a parte que lhes coubera para que, dentro de cada grupo, cada um partilhasse com o próximo.


- in As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013



[Dinis Conefrey]

sexta-feira, 29 de março de 2013

NOTA


A beleza da língua portuguesa provém das suas raízes (latina, grega e árabe), da dicção do povo e da invenção dos poetas, os três factores fundamentais que hoje, tal como hontem, pretensos reformadores assassinam e desfiguram.
Não se estranhe, portanto, neste livro, como, aliás, em todos os nossos livros, grafias diferentes da que, erradamente, se tornou quase comum. 
Guia-nos o critério biológico e estético de Teixeira de Pascoaes e, nele inspirado, algumas palavras, principais ou nucleares, escrevêmo-las com recurso à etymologia genética e tendo sempre em conta a sua conduta musical.
A ortografia é uma arte subtil (variável conforme o contexto), que complementa as artes da caligrafia e da leitura.


António Barahona, As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013

terça-feira, 6 de novembro de 2012

DESENCANTAMENTO

No meu beco, há muitos pombos. Coloquei um recipiente com água, ao lado da porta, para eles beberem e se refrescarem. E atiro-lhes milho e pedacinhos de pão.
Isto, porque me lembro de que no meio de tantos pombos, pode muito bem estar aquele que Jesus esculpiu em barro e a que deu vida, com o seu sôpro.
 

*
 
 
Mas..., Já não há espaço para voar: disseram-me que é proibido alimentar os pombos.
E também é proibido tocar música na rua e aceitar moedas dos passeantes: os meus dois filhos mais pequenos (9 e 12 anos, alunos respectivamente dos Conservatórios de Música e Dansa) foram presos por dois polícias, como se fossem vis bandidos.
Já não há arte na vida, nem espaço para brincar e voar: NÃO É PROIBIDO MALTRATAR CRIANÇAS E DEVE-SE MATAR À FOME OS POMBOS DA CIDADE.



29.VIII.012
 
 
António Barahona
in Cão Celeste n.º 2, Lisboa, Outubro de 2012

domingo, 21 de outubro de 2012

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA DIÓGENES - 2011



A cerimónia informal de atribuição do Prémio, 
seguida de uma leitura de poemas de António Barahona por Diogo Dória, 
terá lugar no próximo sábado, dia 27 de Outubro, às 18h, 
na livraria Paralelo W