Gerrit Willem Dijsselhof, 1895-1915
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domingo, 29 de setembro de 2019
sexta-feira, 1 de março de 2019
quinta-feira, 5 de julho de 2018
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
SETEMBRO
"Seldom we find" says Solomon Don Dunce
"Half an idea in the profoundest sonnet"
Edgar Allan Poe
A fisionomia, o carinho das coisas impalpáveis,
o balbuciar, todo em amarelo, dos limões...
Cintura na pedra, correio subtil de Lesbos para Marte.
Antinous visitou-me. Deixou a casa desarrumada
e um projecto em mim demasiadamente longo.
No frágil da memória eu durmo e sou eu,
deuses de papelão sentando-se a meu lado.
No leito fluvial por onde dorme o cisne
chamam por mim os outros príncipes. Todos
irmãos.
Escuridão nova na velha escuridão,
efeito de luz nas janelas do poema...
O meu cão dorme. He is a poet, isn't he?
Mário Botas
in Aventuras de um Crâneo e outros textos,
org. de Daniela Gomes, Inês Dias, Luis Manuel Gaspar e Manuel de Freitas,
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Era um país, um corpo,
uma cidade de ossos
calcinados, onde nem cães
metiam o dente.
E o corpo é um cristal lívido
no centro d'uma praça, deportado,
límpido, onde nem os homens
se atrevem.
A cidade aposta-se toda
na espessura do sono, na
candura banal, vulgar,
do país em ruína:
impaciente.
uma cidade de ossos
calcinados, onde nem cães
metiam o dente.
E o corpo é um cristal lívido
no centro d'uma praça, deportado,
límpido, onde nem os homens
se atrevem.
A cidade aposta-se toda
na espessura do sono, na
candura banal, vulgar,
do país em ruína:
impaciente.
Paulo da Costa Domingos, Cal,
com prefácio de Vitor Silva Tavares, Lisboa, Averno, 2015
VEIO A ESSA HORA
Não vive neste bairro.
As lojas não conhece.
Não conhece esta gente
que se afana por elas.
Não sabe prò que veio.
Não compra aqui a imprensa.
Só recorda as esquinas
de que os cães bem se lembram.
As janelas acesas
aumentam-lhe a tristeza.
Coração transeunte,
junto às casas recentes
caminha a vacilar,
como alguém a quem levam.
O vento do subúrbio
enreda-se em suas pernas.
A rua como outrora.
E como outrora alheia.
E o ar escurecido,
a noite que se abeira.
Quando dobra a esquina
e aperta o passo, sonha
que o tempo não mudou
brincando a que regressa.
Depois passa distraído,
e pensa: foi uma época.
As lojas não conhece.
Não conhece esta gente
que se afana por elas.
Não sabe prò que veio.
Não compra aqui a imprensa.
Só recorda as esquinas
de que os cães bem se lembram.
As janelas acesas
aumentam-lhe a tristeza.
Coração transeunte,
junto às casas recentes
caminha a vacilar,
como alguém a quem levam.
O vento do subúrbio
enreda-se em suas pernas.
A rua como outrora.
E como outrora alheia.
E o ar escurecido,
a noite que se abeira.
Quando dobra a esquina
e aperta o passo, sonha
que o tempo não mudou
brincando a que regressa.
Depois passa distraído,
e pensa: foi uma época.
Jaime Gil de Biedma
in Antologia Poética, sel. e trad. de José Bento,
Lisboa, Cotovia, 1992
terça-feira, 15 de agosto de 2017
sábado, 22 de abril de 2017
A EITO
Cada verso começa com uma maiúscula
Cada verso é um portal
KILGORE TROUT JR.
Até fazer uma lombada mínima
Assim começo
Nada aqui é fingimento ó pé-de-salsa
Nem o que deveras sinto
Ocupo a clareira da poesia
Para fumar um cigarro em paz
Aí, no bravio descampado
Por minha conta
Estendo-me como uma asa
Ao tráfico da carne
E enquanto travo o fumo cinzento
Procuro palavra a palavra
Outra coisa
Um cão ao sol
Um caderno sensível abandonado num campo
Que alumie no regresso a casa
Os lugares escuros do quarto
E afaste a manhã conformada
Atrás da porta
Para onde não haja nem palha nem grão
Nem bafinho de menino
Ou galo a cantar.
João Almeida, Hotel Zurique,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos,
Lisboa, Averno, 2017
sexta-feira, 3 de junho de 2016
CONSCIÊNCIA
O cão que persegue os pássaros não sabe
que nunca vai voar,
nem a encrespada onda que atingia a tua imensa
altura de criança conhecia
o seu destino de charco desfeito pelo vento.
E aquela nuvem também não
acordará inquieta, a meio da noite,
receando a chuva caída sobre os campos,
nem o pintassilgo que esculpe os seus sons de prata
nos muros do ar
se queima na cinza do seu próprio cantar.
Mas eu sei, quase nasci a saber,
que um dia não estarei sobre o teu coração
para compreender tudo.
Ángel Mendoza
in Criatura n.º 6, trad. Inês Dias,
sábado, 5 de março de 2016
quinta-feira, 3 de março de 2016
CÃO ESTRANGEIRO
[...]
(à volta de, fotograficamente)
O Obturador controla, com engenho e arte, o tempo de exposição à luz e revela a prova de Autor, assina-a, do crime ao castigo. Fecha-se a cortina no teu focinho espantado, os olhos incendiados, a boca escancarada, o sangue lento no coração.
(à volta de, fotograficamente)
O Obturador controla, com engenho e arte, o tempo de exposição à luz e revela a prova de Autor, assina-a, do crime ao castigo. Fecha-se a cortina no teu focinho espantado, os olhos incendiados, a boca escancarada, o sangue lento no coração.
- Ricardo Álvaro
in AAVV, Nós, os desconhecidos,
org. de Daniela Gomes e Rui Pires Cabral, Lisboa, Averno 2012
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
António Barahona
MEMÓRIA DE AMOR
I
A memória descreve
o nosso primeiro encontro
no palco dum teatro:
eu, com um cão debaixo do braço;
e tu, à espera que eu me risse
para me veres os dentes.
[...]
IV
(Directas)
Ainda não havia televisão a côres.
Todas as noites, víamos a série d'O Fugitivo.
Às vezes, bebíamos café e passávamos o resto
da noite a fumar e a conversar.
Não tínhamos pressa.
A paixão defendia-nos do tempo.
Saíamos, eternos, ao clarear do dia,
para comprar peixe na lota do Cais-do-Sodré
e tomar o pequeno almoço na cantina.
Não tínhamos nenhuma pressa.
A paixão defendia-nos do tempo.
Voltávamos, eternos, para casa.
14.VII.013
- in Pássaro-Lyra (Primeiro Tomo da Suma Poética),
com capa de Inês Dias e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Averno, 2015
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
domingo, 1 de novembro de 2015
157
Era uma vez um homem que tinha um cão. Quando passeava no bosque o cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. Um dia o cão morreu. O homem comprou outro cão. Como o anterior o novo cão trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se do outro cão. Mas um dia também esse cão morreu. De novo o homem comprou outro cão. Como os anteriores também este trotava atrás dele. Ouvia-lhe o ruído das patas sobre as folhas o ruído da sua respiração. E lembrava-se dos outros cães. Por fim não foi preciso comprar mais nenhum cão. Para onde fosse uma matilha seguia-o. Mais tarde nem era preciso já ir passear para o bosque.
Ana Hatherly, 463 Tisanas,
Lisboa, Quimera, 2006
terça-feira, 13 de outubro de 2015
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