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terça-feira, 6 de outubro de 2015

OS CÃES DA NOITE


I

Quando a noite se eriça mais do que é costume,
convoco os cães.

Na esperança de que os cães me tirem
das goelas da noite
e abram brechas na muralha de fogo.


A. M. Pires Cabral
in A noite em que a noite ardeu, Lisboa: Cotovia, 2015

sábado, 1 de agosto de 2015

DIALOGO DEL PERRO Y DEL ANGEL


El perro le dijo al ángel: "yo te beso"
el ángel le dijo al perro: "yo te muerdo"
el perro le dijo al ángel: "yo te canto"
el ángel le dijo al perro: "yo te ladro"
el perro le dijo al ángel: "yo te alabo"
el ángel le dijo al perro: "yo te meo"
el perro le dijo al ángel: "yo te leo"
y el ángel: "cállate que me estropeo!"


Carlos Edmundo de Ory, Sin Permiso de Ser Ángel,
New York: Vanguardo Editions Gas Station, 1988

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Manuel de Freitas


Sabes tão bem como eu
que a Rua de Santa Maria
não tem fim. Ladeia o oceano,
demora-se junto de cães sentados
e oferece quando pode um cigarro
à primeira puta que afasta as cortinas.

Para trás fica o comércio,
indiferente ao sino cansado
da Sé e aos gins (se te lembras)
do Sunny Bar. Mas passámos já
a débil fronteira, depois do Mercado.
Pontas de charros no chão - um aviso.

Ou as mulheres que se encostam
às portas pequenas que nos chamam
para o último copo de Jacquê.
Como se fosse (digamos assim) a vida
e tivesse agora tanto espaço para morrer.


In Sunny Bar, sel. de Rui Pires Cabral, 
Lisboa: Alambique, 2015

sábado, 9 de maio de 2015

A ASSOMBRAÇÃO


Eu sou o cão que tu puseste a dormir,
como gostas de chamar à agulha do esquecimento,
e volto para te dizer esta coisa simples:
nunca gostei de ti - nem por um momento.

Quando lambia o teu rosto,
pensava em morder-te o nariz.
Quando via como te secavas com uma toalha,
apetecia-me saltar e castrar-te num instante.

Detestava a maneira como te movias,
a tua falta de graça animal,
a maneira como te sentavas numa cadeira para comer,
com um guardanapo no colo e a faca na mão.

Eu teria fugido,
mas era muito fraco, um truque que me ensinaste
quando ainda estava a aprender a sentar e a deitar,
e - o maior dos insultos - a apertar a mão sem ter uma.

Admito que a visão da trela
me entusiasmava
mas apenas por que significava que estava prestes
a cheirar coisas que nunca tinhas tocado.

Podes não querer acreditar nisso,
mas não tenho nenhuma razão para mentir.
Odiava o carro, os brinquedos de borracha,
detestava os teus amigos e, pior, os teus familiares.

O tilintar da minha chapa levava-me à loucura.
Sempre me fizeste festas no sítio errado.
Tudo o que sempre quis de ti
foi comida e água fresca nas minhas tigelas de metal.

Enquanto dormias, ficava a ver-te respirar
à medida que a lua ia subindo no céu.
Foi precisa toda a minha força
para não levantar a cabeça e uivar.

Agora estou livre da coleira,
da gabardina amarela, da camisola com monograma,
do absurdo do teu relvado,
e isso é tudo o que tu precisas de saber sobre este lugar

excepto o que já calcularas antes
e te deixa feliz porque não aconteceu mais cedo -
que todos aqui conseguem ler e escrever,
os cães em poesia, os gatos e os outros em prosa.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O ferro das grades


Das primeiras vezes, pensei que ladrasse à minha passagem e nem sequer me virei. Quando o olhei com atenção, percebi que entre mim e o seu ladrar havia somente uma coincidência no tempo. Focinho ao alto, olhos fixos que nem por um instante se desviavam do seu inabalável desígnio, ladrava. Não ladrava a transeunte algum que passasse. Tão pouco ladrava a Deus que, por natureza, só existe para os homens e não para todos. Fazia como eu. Vociferava para ninguém por trás das grades do pátio estreito que lhe coube em vida. Vociferava sem esperança de ser libertado ou ouvido. Talvez nem quisesse ser libertado. Talvez nem quisesse ser ouvido. Talvez sem o saber soubesse que até para outra vida tinha passado o tempo de a ter tido. Vociferava apenas. Afrontando o ferro das grades. Afrontando o céu vazio. Afrontando o silêncio que lhe respondia nas pausas do seu vociferar repetido. Vociferava cego, surdo, quase ridículo, enquanto as patas se agitavam sobre a laje num cúmulo de desespero nulo. 


Jorge Roque, Nu contra nu,
Lisboa: Averno, 2014




Francis Bacon, "Study of a dog", 1952

domingo, 16 de novembro de 2014

'Aquilo que nos deixa adormecer a cada noite'


[...]

4. Sim, o texto começa na Achadinha, São Miguel, Açores, e é sobre animais; “cães, gatos, cavalos, burros, passarinhos de toda a espécie, tartarugas, grilos, caracóis, lesmas, borboletas, bichinhos de conta”; “a espantosa grandeza” “com que passeiam sobre o inferno”; gostar tanto deles que “talvez isso seja aquilo que ainda [nos] deixa adormecer em cada noite”. Diz a Renata: “Aos animais devemos essa luz solitária, quase música, quase silêncio, a que chamamos deus. Não o deus da Bíblia, que não sei onde repousa, mas aquele que cuida da alvorada. Porque eles o conhecem, porque com ele privam quando a primeira luz desponta.” Este texto saiu em Maio, no número cinco de uma revista chamada Cão Celeste.

[...]



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

SINGULARIDADE

Não sou mais puro só porque versejo
e Deus me quis contrariado.
O que me cerca, quase desejo,
afirma-se no tempo e na verdade.

O que me cerca tem um nome vão.
Uns dizem mundo, outros futuro.
Mundo futuro é binómio-cão.
Mordendo, ladra, os ossos me une.

O que me cerca suspende a razão
em ambos os pratos da balança.
Fica pairando, tremendo no ar
ave da esperança e da distância.

Sim! - ninguém ouse violentar-me.
Sou o que fui, serei - talvez milagre!


RUY CINATTI



domingo, 12 de outubro de 2014

SÉTIMO DIA

Domingo, os lódãos
ficam mais sérios
no retrato

do jardim. Descansam
as criaturas, descansa quem
as criou, algures longe

da vista, longe do coração.
Descansa o cão extraviado
à sombra do contentor

e o ministro das finanças -
sempre, sempre tão
cansado - no seu reduto

murcho. Domingo, linha branca
que atravessa um olival:
já deste o ramo

ao padrinho? Vagares
de um mundo pequeno
ao domingo, no palheiro,

em histórias de papel velho
cor de açúcar mascavado -
eu bem não queria

morrer. Domingo nos montes
em volta, domingo na ilha
de Kirrin,

domingo em toda a parte,
de nenhures, de Deus
nenhum.


Rui Pires Cabral
in "Génesis", Suroeste — Revista de literaturas ibéricas, n.º 4, 
Badajoz, 2014

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A. M. Pires Cabral


5.


Não estou só
Recrutei companheiros para o Inverno
que não o temem como se teme um lobo,
mas apenas como é justo que se tema
o desdobrar das páginas do tempo:
com decoro. Então
aconchegados a mim, e eu a eles.
Somos uma parede.

Mas há quem esteja só
e assim deva ficar.

A esses, tudo aquilo que o nocivo
Inverno lhes trouxer
recordará o que ficou retido
nas levianas demasias do Verão.

As cartas que usarão como recurso
contra a ausência do Sol
ninguém lhas lerá, ser-lhe-ão devolvidas
com um carimbo maquinal: «Desconhecido
neste endereço». Cartas descompostas
de terem ido e voltado.
Cartas que em boa verdade
escreverão a si mesmos
sob outros nomes e moradas. Cartas
semelhantes a ardilosos bumerangues
ou a cães ensinados a voltar para nós,
trazendo na boca, molhado de saliva,
o pau que arremessámos.


Lisboa: Averno, Novembro de 2004

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

OS CÃES

Os rapazes não serviam para nada. Nos dias em que não chovia iam para o penedo da curva do rio imitar o vento. Se fazia calor empanturravam-se de amoras e corriam para a charca onde se deixavam ficar até o sol desaparecer por detrás dos silvados mais altos. Nos dias de muito frio aninhavam-se abraçados um ao outro e iam cuspindo para o lume se calhava alguém falar no diabo. De Verão e de Inverno nus da cintura para baixo. Sempre nus. Não tinham préstimo, os rapazes, quando os foram buscar à várzea e os puxaram de dentro das ramadas bravas de um vinhedo, rente à levada, e os acartaram num carro de bois pela serra acima para os devolver aos pais. Na terra toda a gente dizia que os pais dos rapazes eram irmãos. Não importava, desde que se mantivessem arredados naquela granja da meia encosta, quase na cumeada, sem luz nem água; cheia de esterco à volta – das cabras, dos cães e dos rapazes.

Os pais dos rapazes viviam de levar as cabras para a serra e de carregar mato para uma ou outra casa grande. No povo ninguém lhes dava trabalho. Não os chamavam para jorna nenhuma nem se esqueciam do dia em que a mulher pariu os dois moços, havia mais de vinte Invernos, naquela granja batida a chuva, com a ajuda da velha, a sua mãe, enquanto os dois homens saíam para o temporal, o novo com o cajado a roçar nas urzes e a gritar com as bestas serra acima, o velho com uma corda do mato a tiracolo a descer na direcção do carvalhal. O velho foi pendurar-se num galho e ficou para ali até o povo dar com ele. O vento a uivar-lhe na boca escancarada como acontecia aos esfaimados que se enforcavam por falta de sustento. Contava-se que não tinha querido ver os moços por serem filhos de quem eram. Era o que se dizia, porque aos da granja mal se lhes ouvia a voz. A velha e o casal eram de parcas palavras e os rapazes nunca tinham aprendido a falar. Percebiam o que se lhes dizia, entendiam-se com os cães, os pássaros e os outros bichos. Mas não falavam.

[...]


Alexandre Sarrazola, Neófitos
Lisboa: Averno, 2014




[Fotograma: Andrei Tarkovsky, 'O Espelho', 1975]

domingo, 3 de agosto de 2014

PENÉLOPE


Encontrava-a aos domingos
com a teia de crochet, perto
do estádio. Ulisses regressava
a Ítaca, no fim de mais um
jornada de águias, dragões
e outros monstros. Argos
no banco de trás, abanava a cauda
para não morrer de velho.


- INÊS LOURENÇO

quinta-feira, 17 de julho de 2014

AURORA(S)


"Era um cão com muita teoria"
- explicou-nos, junto ao aquecedor,
na certeza de que Todorov
não frequenta a travessa do Alcaide,
ao Combro. Aurora. Dona Aurora:
guardiã provisória do declínio
(cor-de-laranja, juro) das paredes
ou dos dias - não há diferença.

Fiz questão de tirar eu próprio
do frigorífico a segunda Sagres.
Já houve naquela rua sete auroras
- não é um verso, apenas um dado
estatístico, vindo de quem sabe.
Algumas, como "histórias verdadeiras",
casaram ou morreram - tanto faz.

O cão, sem nome, aceita o favor
da trela nesta "noite demasiado morta"
(volta a dizer Aurora). É normal,
há coisas que acontecem sob a sombra
desmentida da cidade. Piano, dessa infância
triste, a apodrecer agora numa taberna
colorida. "P'ra mim é tinto" - repetem
já sem clientes os mais pequenos altares.

Enquanto um tecto sobre nós, vazio,
esconjura metáforas e recusa a noite.


Manuel de Freitas, [Sic],
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ele podia ouvir os cães à distância, e os seus latidos
levaram-no até à capela que se erguia junto à estrada,
mas não entrou nela. Isto ficava aquém de rezar,
e os cães negros eram apenas os seus pensamentos de noites de terror
através das rígidas e gratificantes florestas de Santa Cruz;
o coração dele coxeia, borbulhando sangue como bagas no seu caminho,
três ou quatro cristas de palmeira, e os berros loucos dos papagaios
são como o rumor dos testemunhos num julgamento obsceno,
mas atravessam o céu róseo e desvanecem-se, e regressa o consolo.
Na quente, oca tarde um grito atravessa o vale,
um falcão plana, e atrás da chama das perpétuas uma colina arde
com uma flauta de fumo azul; isto é tudo o que há de valor.
Ó folhas, multiplicai os dias da minha ausência para os subtrair
à humilhação do castigo, à emboscada da desgraça
pelo que são: excremento que não merece nenhum tema,
nem o nó e o aprumo de um cedro ou a erva branda,
apenas o desdém da indiferença, escapar à tempestade de abusos
como o ágil movimento dos ramos que se agitam com a graça
da resistência, curvando-se do mesmo modo que o bambu obedece
às rajadas horizontais de chuva, não enquanto martírio
mas enquanto complacência natural; abaixo dele havia uma casa
em que sem qualquer ferida era mais do que bem vindo,
e cães dóceis vinham até ao portão atraídos pela sua voz.



DEREK WALCOTT
[Trad. Inês Dias]