segunda-feira, 10 de dezembro de 2012






ESTE LIVRO ESCURO
- sobre um álbum de Moriyama Daido


Este livro escuro do tamanho de uma caixa de cinzas
é um memorial após outro, página após página
de instantâneos, como se pudéssemos ser cinemáticos,
como se a visão nunca fosse uma rasura, esse negro metafísico.

Se fôssemos ídolos na Hollywood que imaginamos, carne tonificada,
prata escorregadia ou, melhor, tremeluzindo com os aplausos dourados
dos dias a passarem, página após página,
nunca teríamos duvidado do fotográfico,

nunca teríamos desejado o abandono de um poema.


John Mateer, Este Livro Escuro
Lisboa:  Averno, 2012

sábado, 8 de dezembro de 2012

Deportado pelo novo regime
ortográfico, nesta vergonha
de ser-se um involuntário
num caminho que nem

a Roma conduzirá, nem
proveito algum ou sabedoria
se lhe extrairá no fim. Sim,
expulso do coração da fala.



Paulo da Costa Domingos, Averbamento,
Lisboa: &etc, 2011

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

OS CÃES ROMÂNTICOS

Eu tinha vinte anos então
e estava louco.
Tinha perdido um país
mas ganhara um sonho.
E se tinha esse sonho
o resto não importava.
Nem trabalhar nem rezar
nem estudar de madrugada
com os cães românticos ao pé.
E o sonho vivia no vazio do meu espírito.
Uma casa de madeira,
a meia luz,
num dos pulmões do trópico.
E às vezes virava-me dentro de mim
e visitava o sonho, estátua eternizada
em pensamentos líquidos,
uma bicha branca retorcendo-se
no amor.
Um amor desbocado.
Um sonho dentro de outro sonho.
E o pesadelo dizia-me: crescerás.
Deixarás para trás as imagens da dor e do labirinto
e esquecerás.
Mas nesse tempo crescer seria um crime.
Estou aqui, disse, com os cães românticos
e aqui me vou ficar.


Roberto Bolaño
 

sábado, 1 de dezembro de 2012

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

DIÁRIO DE RUM

Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia

Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia
 
Os bárbaros chegaram ao governo
Falam línguas.
 
João Almeida
in Telhados de Vidro n.º 17,
Lisboa: Averno, Novembro de 2012

domingo, 25 de novembro de 2012


António Barahona - David Teles Pereira - Diogo Vaz Pinto - Emanuel Jorge Botelho - Inês Dias - John Mateer - Jorge Roque - Manuel de Freitas - Paulo da Costa Domingos - Silvina Rodrigues Lopes


*


André Lemos - Cláudia Dias - Daniela Gomes - Diniz Conefrey - Fernando Augusto - Isabel Baraona - Luís Henriques - Luis Manuel Gaspar - Manuel Diogo - Maria João Worm - Ricardo Castro




domingo, 18 de novembro de 2012

CÍRCULO

Temos de confiar nas pessoas, afirmava o meu pai, perante as objecções da minha mãe que eram muitas e fundamentadas, e eu criança pouco entendia, embora me sentisse inclinado a defender o meu pai contra as armas e razões da minha mãe, talvez porque na sua eloquência a minha mãe ganhasse clara vantagem e eu nutrisse simpatia pelos derrotados, ou simplesmente porque o gene se tivesse cumprido e eu na minha crença insensata repetisse o meu pai.
Quanto mais sofro por viver de coração aberto, é o que desta memória hoje se ilumina, mais me reconheço nas palavras do meu pai. Quanto mais envelheço, mais me aproximo do lugar que deixou vazio.
JORGE ROQUE
 
 
Raymond Cauchetier, 
'Lunch off-set with Jean-Paul Belmondo and dog (Peau De Banane)',
1963

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

DESENCANTAMENTO

No meu beco, há muitos pombos. Coloquei um recipiente com água, ao lado da porta, para eles beberem e se refrescarem. E atiro-lhes milho e pedacinhos de pão.
Isto, porque me lembro de que no meio de tantos pombos, pode muito bem estar aquele que Jesus esculpiu em barro e a que deu vida, com o seu sôpro.
 

*
 
 
Mas..., Já não há espaço para voar: disseram-me que é proibido alimentar os pombos.
E também é proibido tocar música na rua e aceitar moedas dos passeantes: os meus dois filhos mais pequenos (9 e 12 anos, alunos respectivamente dos Conservatórios de Música e Dansa) foram presos por dois polícias, como se fossem vis bandidos.
Já não há arte na vida, nem espaço para brincar e voar: NÃO É PROIBIDO MALTRATAR CRIANÇAS E DEVE-SE MATAR À FOME OS POMBOS DA CIDADE.



29.VIII.012
 
 
António Barahona
in Cão Celeste n.º 2, Lisboa, Outubro de 2012

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

CÃO
LIRICA
ÇÃO


Parte da lírica
afago-a com as unhas
camadas submissas
focinho do poema.

Os óculos perseguem as pálidas palavras.

Mesmo as mãos
farejam o discurso
enquanto firo um toiro
num alfabeto loiro
num velho mecanismo.

(Um lápis diz para mim:
enxota a solidão)

Parte da lírica
agora é como um cão.

- Armando Silva Carvalho, Lírica Consumível, 1965
 
[Obrigada, Joana]