sábado, 23 de março de 2013



Vittore Carpaccio, "Retrato de um cavaleiro", 1510
[Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid]

quarta-feira, 20 de março de 2013

HISTÓRIA DE CÃO

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada


Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação,
2ªed. revista, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005
 

sábado, 16 de março de 2013

O ANJO PERPLEXO

Nunca houve deus, nem virgens, nem santos,
nem ícone que proteja, nem oração que console;
nunca houve milagres ou prodígios,
nem salvação da alma ou vida eterna;
nem palavras mágicas, nem bálsamo eficaz
contra a dor que não enfraquece nunca;
e nem luz do outro lado das sombras,
nem saída do túnel, nem esperança.
Só nos acompanha nesta travessia
um anjo da guarda perplexo que suporta
a mesma vida que cão que nós todos.


Amalia Bautista, Estou Ausente,
Lisboa: Averno, 2013

sexta-feira, 8 de março de 2013

Deus disse: "Em minha inquietação.
foi necessário pôr-te neste mundo
como se exibe uma ferida sem pudor.
Assim me condenei a ter-te pela trela,
a dar-te de comer três vezes cada dia,
a tirar-te os parasitas:
o sonho, o absoluto,
na precisão de crer-te meu igual.
Mas eu sou generoso:
ainda pela alva ao perfume das rosas
autorizo-te a dizer que foste tu
que me criaste.
Voltemos para casa, caro cão:
vai buscar-me o teu osso
e dorme diante da lareira
com o olhar molhado de ternura."


Alain Bosquet, O Tormento de Deus,
trad. Jorge Guimarães,
Lisboa: Quetzal Editores, 1992

Hoje, no ÍPSILON/PÚBLICO:


quarta-feira, 6 de março de 2013

JOANA


Eu pensava que tinha
o problema resolvido
e ainda hoje um de alsácia
se aproximou e a minha pele
tremeu, a minha esperança
fugiu. Nunca terei
quem assim me defenda
dos dias banais, de outros
terrores, quem assim me encontre
com pouco para dar. Eu pensava
que tinha outra vida
a viver e uma noite propícia
a palavras deixou-me a verdade
e o impossível. Não se sabe já
quem conduz quem, passos,
sagrada obediência
adivinhando emoções na guarda
dos dias. Outra cegueira
é a minha, cortei-me nas mãos
e separei-me de mim, ouvi
os enganos do amor previsto.
Corre comigo enquanto
não posso, cheira-me as pernas
e reconhece o estranho, não gosto
de cães, só gosto de ti.



Helder Moura Pereira, Eliot e Larkin no comboio para Hull (1989)

terça-feira, 5 de março de 2013


[...]

Tenho uma recordação de mim em criança, a afagar um pormenor num romance. Recordar o momento é outra forma de restaurar a fé na ficção. A experiência foi hipnótica, com consequências para toda a vida, porque me mostrou como os mundos dos factos e da ficção podem interpenetrar-se. Eu tinha 13 anos, estava sozinho na biblioteca da escola, fascinado com The Go-Between, de L. P. Hartley. O herói, Leo, filho de uma família pobre, passa as férias de verão de 1900 com um colega, cuja família tem uma grande casa de campo. O cerne da acção é, claro, o papel de Leo como mensageiro numa relação amorosa ilícita. Mas o que me envolveu foi a onda de calor daquele mês de julho e o fascínio do rapazinho pelo termómetro da estufa, sempre à espera que o mercúrio atingisse os 100 graus. O exemplar dessa semana da revista satírica Punch chega à casa e, lá dentro, um desenho mostra "O Sr. Punch debaixo de uma sombrinha, franzindo o sobrolho, enquanto o Cão Toby, com a língua de fora, se arrasta atrás dele."

Lembro-me de pôr o livro de parte e, num movimento inspirado, atravessar a biblioteca até às prateleiras onde as velhas edições de Punch estavam guardadas, tirar o volume de 1900 e abri-lo no mês de julho. E lá estavam eles, o cão sobreaquecido, a sombrinha e o Sr. Punch a limpar a testa com um lenço! Era verdade. Senti-me cativado, deliciado, com o poder de algo simultaneamente imaginado e real. E por instantes senti uma tristeza inabitual, nostalgia por um mundo de que fora excluído. Por um momento, eu tinha sido Leo, a ver o que ele via, e era de novo 1962 e eu estava na escola interna, sem onda de calor, apenas com este pequeno vestígio de uma revista que amarelecia.

[...]



Ian McEwan, "Apostasia Ficcional"
(trad. de António Costa Santos)
in Atual/Expresso, 2 de Março de 2013

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

GUERRA & PAZ


Pedidos sacrifícios, as imagens
Foram trazidas na maré, enxutas.
Treme a escada torpe, e o cão ladra -
São os antepassados, fixos,
Na água das janelas.
Que podemos fazer, o fumo
Entra nas casas é preciso
Uma porta que nos leve ao mar.
 

 
 Gil de Carvalho, De Fevereiro a Fevereiro,
Lisboa: Centelha, 1987

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

[...]

Negro brilhando arrastava consigo o nosso olhar,     por necessidade física de o vermos ser cão; nunca um cão a fazer o seu trabalho fora um tão minucioso movimento em espirais e volutas; fazia redemoinhar o centro do lugar onde estávamos arrastando consigo instrumentos de música e nascimentos; era uma forma correspondente ao branco potencial dos cordeiros que o tratavam respeitosamente por vós; nas águas frequentemente tão estagnadas do afecto, eles faziam variar as rotações mil vezes por unidade de salto.

Era um rebanho, Aramis?, era um agregado de estrelas luminosas vistas pelo lado baço da lã?, era a nossa constelação reanimando-se e, num esforço dos seus músculos, pousando, confidencialmente, a sua configuração na serra de Ossa?



Maria Gabriela Llansol, O raio sobre o lápis,
com desenhos de Julião Sarmento,
Lisboa: Europália, 1991

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013



Fotografia de Lola Alvarez Bravo, "Frida Kahlo e os seus cães Xoloitzcuintli", 1944. 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

CERIMÓNIA FUNESTA


O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos,
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estreme ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.


Fátima Maldonado
in Telhados de Vidro n.º1
Lisboa: Averno, Novembro de 2003