sábado, 1 de junho de 2013

O lançamento do CÃO CELESTE # 3...




... será no próximo dia 14 de Junho (6ªf), 
pelas 22h, no Paralelo W,
com apresentação de Rosa Maria Martelo. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Acabou de chegar...





Neste terceiro número do Cão Celeste, com direcção de
Inês Dias/Manuel de Freitas e coordenação gráfica de Luís Henriques,
colaboram Alexandre Sarrazola, André Lemos, António Barahona, Cláudia Dias, Daniela Gomes, Diniz Conefrey, Étienne Carjat, Fabiano Calixto, Inês Dias, Isabel Baraona, Isabel Nogueira, John Mateer, Jorge Roque, José Ángel Cilleruelo, Konoe Nobutada, Luís Filipe Parrado, Luís Henriques, Luis Manuel Gaspar, Manuel de Freitas, Manuel Diogo, Maria João Worm, Pádua Fernandes, Paulo da Costa Domingos e Ricardo Castro.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

"I don't wanna grow up" (2:31)



When I'm lyin' in my bed at night
I don't wanna grow up
Nothin' ever seems to turn out right
I don't wanna grow up
How do you move in a world of fog
That's always changing things
Makes me wish that I could be a dog
When I see the price that you pay
I don't wanna grow up
I don't ever wanna be that way
I don't wanna grow up

Seems like folks turn into things
That they'd never want
The only thing to live for
Is today
I'm gonna put a hole in my TV set
I don't wanna grow up
Open up the medicine chest
And I don't wanna grow up
I don't wanna have to shout it out
I don't want my hair to fall out
I don't wanna be filled with doubt
I don't wanna be a good boy scout
I don't wanna have to learn to count
I don't wanna have the biggest amount
I don't wanna grow up

Well when I see my parents fight
I don't wanna grow up
They all go out and drinking all night
And I don't wanna grow up
I'd rather stay here in my room
Nothin' out there but sad and gloom
I don't wanna live in a big old tomb
On Grand Street

When I see the 5 o'clock news
I don't wanna grow up
Comb their hair and shine their shoes
I don't wanna grow up
Stay around in my old hometown
I don't wanna put no money down
I don't wanna get me a big old loan
Work them fingers to the bone
I don't wanna float a broom
Fall in love and get married then boom
How the hell did it get here so soon
I don't wanna grow up


Tom Waits / Kathleen Brennan

domingo, 12 de maio de 2013

Jean Cocteau


O ofício do poeta, ofício que não se aprende, consiste em colocar os objectos do mundo visível, tornado invisível pela borracha do hábito, numa posição insólita que interpele o olhar da alma e lhe confira tragédia. Trata-se, pois, de comprometer a realidade, de a apanhar em falta, de a inundar subitamente de luz e de a obrigar a confessar o que ela esconde. [...]



[Raymond Voinquel, "Jean Cocteau", 1942]

sexta-feira, 10 de maio de 2013


"A única responsabilidade política, o imperativo categórico da arte é hoje o de se limitar radicalmente a uma estética da verdade, que não tem nada a ver com os negócios do dinheiro ou das ideologias, mas muito mais com o luto (Trauer) ou, na melhor das hipóteses, com alguma alegria."


Hans-Jürgen Syberberg,
citado por João Barrento in 90 Poemas de Günter Kunert,
Lisboa: apáginastantas, 1983

terça-feira, 7 de maio de 2013

NOITE E NEVOEIRO – ALAIN RESNAIS (1955)

 
1.

Leni Riefenstahl não sabia de nada.

No terror dos anos trinta, quando tantos
se calavam, para sempre, seus filmes
difundiam corrupios de assassinos:
a física da morte em movimento, a festa
dos ferozes. Parada de conversos ao sublime
bebedouro das entranhas, com gorjeios
orquestrados por demente cabra-cega.

Tudo isto, recordemos, junto à fonte
do mais ímpio fedor.

Os seus filmes destruíam a realidade,
mas ela não sabia. Não saber é antegosto
dos estetas e ferrete dos pequenos.
Quem sabe, perde a fome, dorme
pouco, faz as malas. O melhor
para a saúde, realmente, é não saber.

2.

Diz-se que Jdanov puxava da caneta
sempre que ouvia a palavra “memória”:
apontava baixo e certeiro – era difícil
não lhe sorrir. Os tecnocratas,
toda a gente o sabe, têm boa pontaria.
Do Inferno sabem tudo, mas do inferno
nunca ouviram falar. Percebe-se,
evidente, que lhes dá mais jeito assim.

Estão por conta do zeitgeist, pensam
eles, e continuam. Isso lhes basta.
A vontade é o seu elemento: descem
manípulos, orientam lâmpadas, decidem
ângulos, apõem rubricas – é surpreendente
a facilidade com que gritam
“corta!”, “rua!”, “mata!”, “não!”


- José Miguel Silva, Movimentos no escuro,
Lisboa: Relógio D'Água, 2005
 
[AQUI]

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Gerard Manley Hopkins


POETRY AT OXFORD


It is a happy thing that there is no royal road to poetry. The world should know by this time that one cannot reach Parnassus except by flying thither. Yet from time to time more men go up and either perish in its gullies fluttering ‘excelsior’ flags or else come down again with full folios and blank countenances. Yet the old fallacy keeps its ground. Every age has its false alarms."


- extrato de um Diário de 1864





domingo, 28 de abril de 2013

Emily Dickinson



in Poems of Emily Dickinson,
com desenhos de Helen Sewell,
Connecticut: The Heritage Press, 1952


sábado, 20 de abril de 2013

A ERVA-ANDORINHA E A CURA DA CEGUEIRA

[...]

Creio que a poesia, mais do que o que diz, ama o que se furta ao dizer. “A tarefa do poeta: após descobrir – encobrir” (Marina Tsvietaieva, Indícios Terrestres). A poesia não é moderna. O espírito moderno é o da descoberta. A poesia, porém, recobre, revela. O espírito moderno é o do novo. A poesia trata da origem (e “a novidade é a antítese da originalidade), segundo a expressão de George Steiner em “Presenças Reais”). O espírito moderno é invenção, progresso. Na poesia o movimento é um regresso, é o verso. O espírito moderno é técnico, mecânico. O da poesia é rítmico. Para o espírito moderno, democrático, o segredo escandaliza e a devassa legítima. Mas a poesia, se diz o segredo é para o preservar intacto, para o transmitir mais puro (Luiza Neto Jorge: “Não podendo falar para toda a terra/ direi um segredo a um só ouvido”). O espírito moderno é proclamação, palavra de ordem, reclamação e grito. A poesia nada mais pode senão o canto e o murmúrio. Ela teme que sobrevenha ao coração dos homens a cólera de Enlil. “Disse ele aos deuses reunidos em conselho: ‘O tumulto da humanidade é intolerável e já não é possível dormir com esta confusão.’ E assim os deuses concordaram em exterminar a humanidade” (A Epopeia de Gilgamesh).

[...]


 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

"Haverá uma beleza que nos salve?"


Não é a beleza que salva, mas, sim, a arte da beleza: a Poesia, gramática da nudez concisa.


- António Barahona, As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013



*



«HAVERÁ UMA BELEZA QUE NOS SALVE?»


Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de actos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, «mais vale burro vivo do que sábio morto». Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e o de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão «renúncia às coisas inúteis e partilha» («renonce aux choses inutiles et partage», in Famille chrétienne,Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar --mas será involuntariamente? -- bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado «Voyelles». A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença.


- Adília Lopes, Le Vitrail La Nuit/A Árvore Cortada, 
Lisboa: &etc, 2006