segunda-feira, 8 de julho de 2013

Rui Nunes


O massacre concentrou-se em pequenas coisas. E sobrevive, nas cansadas viagens suburbanas. Sob os olhos colados de sono, a mão esquecida pesa ou afasta, às vezes cai, abandonada. Um cão enrola-se debaixo de um banco: as palavras têm aqui a aspereza de um vidro riscado. Estação a estação fica mais nítido o vómito nas janelas. E cada minuto recua até encontrar a sua explicação. 
Quem não conhece estas manhãs, duvida:
somos todos o passado clandestino dos felizes, quando o rio era um brilho entre salgueiros, um desvio incerto da infância. 


in Uma Viagem no Outono,
Lisboa: Relógio D'Água, Junho 2013

terça-feira, 2 de julho de 2013

ACORDEÃO


Pedir de mãos vazias é demasiado
triste. Talvez por isso, chegou a tocar
acordeão. Uma velha melodia
incapaz de ser alegre,
ainda que nos lábios um sorriso,
olhos apontados em direcção incerta.
O cão parece sentir a mesma coisa,
enrolado agora a um canto do tapete.

É dia de S. Valentim, com letreiro afixado
na montra, o problema da poesia frouxa
está oficialmente controlado. De repente
precisamos de todo o espaço
que vai da garganta ao coração,
esquecemo-nos da conversa
com que estávamos para aqui
a libertar o tempo e a prender ideias.

Mas é a realidade que muda
ou somos nós? É espantoso
o que uma pequena melodia consegue fazer.
Às vezes é preciso ficar só,
com os nossos próprios medos,
ser capaz de suportar a escuridão.
E na terra expropriada construir
novos edifícios. Quando já não doer tanto.


Vítor Nogueira, Comércio Tradicional,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa: Averno, 2008



segunda-feira, 24 de junho de 2013


MUSÉE DES BEAUX ARTS


About suffering they were never wrong,
The old Masters: how well they understood
Its human position: how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.

In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.



W. H. AUDEN

sábado, 22 de junho de 2013

IV

ouvi falar de anjos,
mas os cães são os meus animais favoritos


Pádua Fernandes
in  Código Negro, 
Desterro: Cultura e Barbárie, 2013

domingo, 16 de junho de 2013

terça-feira, 11 de junho de 2013

ANA PAULA INÁCIO


são como serras
altivas de cabras
e nós a montá-las
a percorrê-las
eles de cães
cios armados
o gelo quebrado
as mãos retalhadas
a alegria do sangue
no chão das casas
onde o pão entra
a escassos bravos
o choro dos filhos
as plantas amargas
o olho vazo
dum cão atiçado
o desígnio do que vai morrer


in As Vinhas de Meu Pai
 (2000)

quinta-feira, 6 de junho de 2013

LAIKA


Numa esfera de metal
Do melhor que possuímos
Gira dia após dia um cão morto
À roda da nossa terra
Como aviso
De que também ano após ano
Poderá um dia girar à roda do sol,
Carregado com uma humanidade morta,
O planeta terra
O melhor que possuímos.


Günter Kunert




[Aqui]

JOHN MATEER

"INVICTUS e a revolução negociada
ou a ideia de poema lírico segundo Clint Eastwood"

MÁRIO BOTAS


10.

Compõe-se a imagem do que sou, de um ser outro e distinto dos nomes que chamei à Morte, ao Destino ou à Vida, quando tenho de estar só, e sou o espelho onde a minha imagem se deflecte e entra a correr no Infinito.
Espera, imagem, não corras, deixa-me saborear a paisagem, deixa-me levar recordações, cabelos, a sombra pacífica de um cão que paira sempre a meu lado.
Deitado, podre, vão-me sair pelos olhos e pelo nariz os humores do esquecimento. Tu que me podias reconhecer, também tu me renegaste e partiste.
Animais que tive, e me não deixam sozinho, venham imitar o filósofo vosso mestre.
Queridos bichos sem imagem racional, acompanhem-me, ao menos vós, na claridão imensa da morte.
 
 
 


in Aventuras de um crâneo e outros textos,
Lisboa: Averno, 2013

quarta-feira, 5 de junho de 2013

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA DIÓGENES - 2012


REGULAMENTO


1. O Prémio Nacional de Poesia Diógenes, instituído pela revista O Cão Celeste, destina-se a galardoar anualmente uma obra de autor português originalmente publicada em território nacional no ano anterior ao da divulgação do Prémio.

2. O valor pecuniário deste Prémio é de €1500,00 (mil e quinhentos euros).

3. A divulgação do regulamento é feita através da revista O Cão Celeste e do blog homónimo (ocaoceleste.blogspot.com).

4. Para apreciação do Júri, de cada livro concorrente editado em 2012 deverão ser enviados três exemplares, que não serão devolvidos, para a Rua Luís de Camões, 126, 1.º Direito, 1300-363 Lisboa, até ao dia 30 de Julho de 2013.

5. Cumpre à Direcção de O Cão Celeste eleger um Júri composto por três membros, que não poderão ser contemplados com este Prémio na condição de autores ou ter, enquanto editores, obras a concurso. Desses três membros, apenas um poderá voltar a integrar o Júri designado para o ano seguinte,

6. A deliberação do Júri assentará num critério de maioria simples.

7. O Prémio não será atribuído se o Júri decidir que nenhuma das obras a concurso o justifica.

8. Se o Júri assim o deliberar, o Prémio poderá ser atribuído ex aequo.

9. A deliberação do Júri não é passível de recurso.

10. O anúncio da obra premiada será feito assim que for conhecida a deliberação do Júri, nos mesmos órgãos em que foi divulgado o regulamento do Prémio Nacional de Poesia Diógenes.

11. A entrega do Prémio ao autor galardoado terá lugar numa cerimónia pública a definir oportunamente.

12. Os casos omissos neste regulamento serão apreciados e decididos pela Direcção da revista O Cão Celeste, cuja decisão será irrecorrível.