sábado, 17 de agosto de 2013

COMPOSIÇÃO DE LUGAR


Cerra os teus olhos, eu conto.
De manhã cedo acordado,
Abraão subiu ao monte.
E sob um céu de fornalha

viu na planura queimada
lá da banda de Sodoma
um cão a chorar por todas
as cinzas que foram casas.

O cachorro tão apócrifo
acrescenta um contraponto
a esse fumo canónico
do velho bíblico conto.


José António Almeida, A Mãe de Todas as Histórias,
Lisboa: Averno, 2008

domingo, 4 de agosto de 2013


"Elas sempre existiram, as pequenas editoras contra a corrente, a que em tempos se chamava «de vão de escada». Mas elas parecem ter regressado em força um pouco por todo o lado, para contornar crises, resistir aos grandes grupos e afirmar a mais valia de pensamento e poesia. No meu último livro – O Mundo Está Cheio de Deuses. Crise e crítica do contemporâneo (Assírio & Alvim, 2011) – defendo a tese de que há inúmeros sintomas de uma generalizada tentativa de «organizar o pessimismo» (a expressão é de Walter Benjamin), e de que uma das formas actualmente mais eficazes de resistência à formatação das consciências é a pluralização dos focos de inovação, com uma clara vontade de resistir à industrialização da cultura e à mercantilização da literatura, para trazer à luz o novo e o diferente – que pode também incluir o «clássico»!
Exemplo paradigmático, e ele próprio quase já clássico entre nós, é o da Averno de Manuel de Freitas e Inês Dias, com as suas muitas pequenas edições (de que sairam recentemente de uma assentada mais três: As Coisas Naturais, de Ernesto Sampaio, As Grandes Ondas, de António Barahona e Aventuras de um Crâneo e Outros Textos, de Mário Botas), e também com a revista Telhados de Vidro, que tem marcado toda uma época com um posicionamento radical, e de que saiu agora o nº 18, com uma surpreendente antologia de poesia em 2013, em que convivem, na diferença, nomes firmados (Hélia Correia, Fátima Maldonado, A. M. Pires Cabral ou Fernando Guerreiro) com outros ainda em busca de afirmação - ou não (Jorge Roque ou Marta Chaves). Simultaneamente chega-nos o terceiro número da nova revista da Averno, a Cão Celeste, outro projecto assinalável, não apenas pelos conteúdos, mas também, e particularmente, pelo grafismo inconfundível da responsabilidade de Luís Henriques, mas com colaboração visual muito diversificada.

[...]"


João Barrento, "Os pirilampos da edição": 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

terça-feira, 23 de julho de 2013

«As folhas dos dias estavam em branco.»


Em Agosto havia
tempo e vagar. Obras
paradas, cães sem coleira
e um vizinho sentado à janela
entre cortinas de mofo. Hang on
sleepy town. Tudo adiado.

Sobrávamos nós, os conspiradores,
murados no terraço pela sombra
das montanhas; sobravam
também, toda a tarde,
as luzidias ilhas de vinil
em rotação –

e enquanto o espinho
de diamante as percorria,
víamos por vezes
acender-se na penumbra
a cidade de onde nos tinham
degredado desde sempre

e para sempre, tão forte
era o apelo da estranha língua
nativa: ruas sem retorno, negras
escadarias, túneis que levavam,
madrugada dentro, aos enredos
do futuro –

por favor, por favor,
que tudo comece. Num silêncio
sem paz nem sossego
ficávamos depois abandonados.
E esses foram, já se sabe,
os melhores dias.





Rui Pires Cabral, Oráculos de Cabeceira
com ilustrações de Daniela Gomes, 
Lisboa: Averno, 2009

Dia 1 de Agosto, pelas 21h30, em Guimarães:






Maria João Worm / Diniz Conefrey

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Rui Nunes


O massacre concentrou-se em pequenas coisas. E sobrevive, nas cansadas viagens suburbanas. Sob os olhos colados de sono, a mão esquecida pesa ou afasta, às vezes cai, abandonada. Um cão enrola-se debaixo de um banco: as palavras têm aqui a aspereza de um vidro riscado. Estação a estação fica mais nítido o vómito nas janelas. E cada minuto recua até encontrar a sua explicação. 
Quem não conhece estas manhãs, duvida:
somos todos o passado clandestino dos felizes, quando o rio era um brilho entre salgueiros, um desvio incerto da infância. 


in Uma Viagem no Outono,
Lisboa: Relógio D'Água, Junho 2013

terça-feira, 2 de julho de 2013

ACORDEÃO


Pedir de mãos vazias é demasiado
triste. Talvez por isso, chegou a tocar
acordeão. Uma velha melodia
incapaz de ser alegre,
ainda que nos lábios um sorriso,
olhos apontados em direcção incerta.
O cão parece sentir a mesma coisa,
enrolado agora a um canto do tapete.

É dia de S. Valentim, com letreiro afixado
na montra, o problema da poesia frouxa
está oficialmente controlado. De repente
precisamos de todo o espaço
que vai da garganta ao coração,
esquecemo-nos da conversa
com que estávamos para aqui
a libertar o tempo e a prender ideias.

Mas é a realidade que muda
ou somos nós? É espantoso
o que uma pequena melodia consegue fazer.
Às vezes é preciso ficar só,
com os nossos próprios medos,
ser capaz de suportar a escuridão.
E na terra expropriada construir
novos edifícios. Quando já não doer tanto.


Vítor Nogueira, Comércio Tradicional,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa: Averno, 2008



segunda-feira, 24 de junho de 2013


MUSÉE DES BEAUX ARTS


About suffering they were never wrong,
The old Masters: how well they understood
Its human position: how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.

In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.



W. H. AUDEN

sábado, 22 de junho de 2013

IV

ouvi falar de anjos,
mas os cães são os meus animais favoritos


Pádua Fernandes
in  Código Negro, 
Desterro: Cultura e Barbárie, 2013

domingo, 16 de junho de 2013

terça-feira, 11 de junho de 2013

ANA PAULA INÁCIO


são como serras
altivas de cabras
e nós a montá-las
a percorrê-las
eles de cães
cios armados
o gelo quebrado
as mãos retalhadas
a alegria do sangue
no chão das casas
onde o pão entra
a escassos bravos
o choro dos filhos
as plantas amargas
o olho vazo
dum cão atiçado
o desígnio do que vai morrer


in As Vinhas de Meu Pai
 (2000)