terça-feira, 12 de novembro de 2013
sábado, 9 de novembro de 2013
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
OS TRÊS VELHOS
vinde cá ver estes três velhos
tão pacatos ao sol.
o país despovoa-se.
a curva demográfica desce.
a inflação derrapa.
o desemprego aumenta.
o estado rouba.
mas estes três velhos apanham sol,
contentes no correr da tarde.
os ricos baldam-se a pagar impostos.
o lince da malcata está em perigo.
a poluição ameaça os cursos de água.
as crianças aproveitam zero na escola.
há escândalos, negociatas, corrupção.
mas estes três velhos sentam-se num banco
e vão apanhando sol.
os espanhóis querem reter os rios.
a saúde está um coas.
a justiça está uma vergonha.
vivemos do cartão de crédito.
até vamos alugar submarinos.
mas estes três velhos franzem os olhos
e as caras enrugadas
à claridade solar benfazeja.
a agricultura está em crise total.
as pescas estão em vias de extinção e de miséria.
os empresários só funcionam com subsídios.
a construção de obras públicas encerrou.
mas estes três velhos só não querem
que lhes roubem o sol (como diógenes).
a televisão transmite as maiores idiotias.
os noticiários só fazem propaganda do governo.
a inépcia do governo não tem limites.
o primeiro-ministro afecta um ar untuoso de primeira-comunhão,
ou de baptismo porque a maioria tem muitos afilhados.
mas estes três velhos estão-se borrifando
solenemente.
não são de direita nem de esquerda.
apanham sol.
Vasco Graça Moura (a partir de uma fotografia de Gérard Castello-Lopes)
in Giraldomachias, Lisboa, Edições Quetzal / Casa Fernando Pessoa, 2000
domingo, 29 de setembro de 2013
NÓS, OS ANIMAIS
"[...] Não sendo imediatamente visível que configuração de homens corresponde a tal mundo pós-histórico – um mundo de Ronaldos, nas mais diversas atividades e profissões; o american way of life; um regresso à condição de «bom» selvagem, na selva urbana e não urbana – e independentemente de isso não constituir necessariamente uma «catástrofe cósmica», como diz Alexandre Kojève (p. 158), vale a pena, julgo eu, privilegiarmos momentos em que o animal que somos ainda é uma experiência possível para os homens."
David Antunes, "Nós, os animais" - AQUI
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
EMANUEL JORGE BOTELHO
ANTERO DE QUENTAL, O ANJO CANSADO
os dias iam indo sem sair da noite.
todas as manhãs um cão entrava nos seus passos para lhe fazer companhia.
colocou tudo dentro de uma rasura de soneto e fechou a porta.
fechar a alma era coisa já antiga. como uma rosa que esqueceu o seu nome e já não sabe as palavras da cor.
a vida poucas vezes lhe deu tempo de guardar no bolso o que era do silêncio, esse riso de hiena armadilhado que põe mel no rumor do medo.
chegou ao Campo de São Francisco à hora que acordara.
a morte já lá estava com as asas recolhidas.
sentou-se, deu ao cão um longo afago, aconchegou-o junto às pernas, e deixou pousar nos lábios o sal de duas lágrimas.
depois, devagarinho, tirou do bolso a mão direita e deu dois tiros na morte.
no chão, desde aquele dia, ficou o recorte de uma sombra.
quem a vê, dá-lhe o nome de sudário.
e reza.
Ilha de S. Miguel, Açores
[in Cão Celeste n.º2, Lisboa, Outubro 2012]
domingo, 8 de setembro de 2013
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Jean Cocteau (2)
GRAVIDADE DO CORAÇÃO
A água das fontes corre gravemente como a boca de um cão. A rosa intimida-me. Nunca ri. E a árvore dorme de pé. Não brinca. Ordena, por exemplo, à sua sombra: deita-te, descansa, partimos assim que anoitecer. Ao anoitecer, a sombra sobe-lhe para os ramos e partem.
Quem ama escreve nas paredes.
Se eu visse o meu coração, já não teria coragem para te sorrir. Ele trabalha demasiado nesta noite sem lua. Deitado sobre ti, espreito o seu galope, que me traz uma má notícia.
- in Tanta coisa por dizer,
trad. Inês Dias,
Lisboa: Língua Morta, 2012
sábado, 17 de agosto de 2013
COMPOSIÇÃO DE LUGAR
Cerra os teus olhos, eu conto.
De manhã cedo acordado,
Abraão subiu ao monte.
E sob um céu de fornalha
viu na planura queimada
lá da banda de Sodoma
um cão a chorar por todas
as cinzas que foram casas.
O cachorro tão apócrifo
acrescenta um contraponto
a esse fumo canónico
do velho bíblico conto.
José António Almeida, A Mãe de Todas as Histórias,
Lisboa: Averno, 2008
domingo, 4 de agosto de 2013
"Elas sempre existiram, as pequenas editoras contra a corrente, a que em tempos se chamava «de vão de escada». Mas elas parecem ter regressado em força um pouco por todo o lado, para contornar crises, resistir aos grandes grupos e afirmar a mais valia de pensamento e poesia. No meu último livro – O Mundo Está Cheio de Deuses. Crise e crítica do contemporâneo (Assírio & Alvim, 2011) – defendo a tese de que há inúmeros sintomas de uma generalizada tentativa de «organizar o pessimismo» (a expressão é de Walter Benjamin), e de que uma das formas actualmente mais eficazes de resistência à formatação das consciências é a pluralização dos focos de inovação, com uma clara vontade de resistir à industrialização da cultura e à mercantilização da literatura, para trazer à luz o novo e o diferente – que pode também incluir o «clássico»!
Exemplo paradigmático, e ele próprio quase já clássico entre nós, é o da Averno de Manuel de Freitas e Inês Dias, com as suas muitas pequenas edições (de que sairam recentemente de uma assentada mais três: As Coisas Naturais, de Ernesto Sampaio, As Grandes Ondas, de António Barahona e Aventuras de um Crâneo e Outros Textos, de Mário Botas), e também com a revista Telhados de Vidro, que tem marcado toda uma época com um posicionamento radical, e de que saiu agora o nº 18, com uma surpreendente antologia de poesia em 2013, em que convivem, na diferença, nomes firmados (Hélia Correia, Fátima Maldonado, A. M. Pires Cabral ou Fernando Guerreiro) com outros ainda em busca de afirmação - ou não (Jorge Roque ou Marta Chaves). Simultaneamente chega-nos o terceiro número da nova revista da Averno, a Cão Celeste, outro projecto assinalável, não apenas pelos conteúdos, mas também, e particularmente, pelo grafismo inconfundível da responsabilidade de Luís Henriques, mas com colaboração visual muito diversificada.
[...]"
João Barrento, "Os pirilampos da edição":
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