quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

MANDELA / DA ESPERANÇA




John Mateer, 'Invictus e a revolução negociada ou a ideia de poema lírico segundo Clint Eastwood'
in Cão Celeste n.º2, Lisboa, Outubro 2012

domingo, 17 de novembro de 2013

CONTARELO


Venho dum país de neve e floresta
cujas renas nos aquecem com o bafo
e onde deixei um filho gigantesco.
Mas que fútil triste música é esta
que no ar desenha melancólicas flores de luz
e vem acompanhada dum tinido grotesco?!!

Saudade, astrolírica saudade
teu nome é Mathilde
a voz                        Fidelidade
e o contorno é um pequeno cão macambúzio
feito com tinta castanha da China.
Fim.


Manuel de Castro
Dezembro de 1967

in & etc - uma editora no subterrâneo,
Lisboa, Letra Livre, 2013

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

OS TRÊS VELHOS


vinde cá ver estes três velhos
tão pacatos ao sol.

o país despovoa-se.
a curva demográfica desce.
a inflação derrapa.
o desemprego aumenta.
o estado rouba.

mas estes três velhos apanham sol,
contentes no correr da tarde.

os ricos baldam-se a pagar impostos.
o lince da malcata está em perigo.
a poluição ameaça os cursos de água.
as crianças aproveitam zero na escola.
há escândalos, negociatas, corrupção.

mas estes três velhos sentam-se num banco
e vão apanhando sol.

os espanhóis querem reter os rios.
a saúde está um coas.
a justiça está uma vergonha.
vivemos do cartão de crédito.
até vamos alugar submarinos.

mas estes três velhos franzem os olhos
e as caras enrugadas
à claridade solar benfazeja.

a agricultura está em crise total.
as pescas estão em vias de extinção e de miséria.
os empresários só funcionam com subsídios.
a construção de obras públicas encerrou.

mas estes três velhos só não querem
que lhes roubem o sol (como diógenes).

a televisão transmite as maiores idiotias.
os noticiários só fazem propaganda do governo.
a inépcia do governo não tem limites.
o primeiro-ministro afecta um ar untuoso de primeira-comunhão,
ou de baptismo porque a maioria tem muitos afilhados.

mas estes três velhos estão-se borrifando
solenemente.
não são de direita nem de esquerda.
apanham sol.


Vasco Graça Moura (a partir de uma fotografia de Gérard Castello-Lopes)
in Giraldomachias, Lisboa, Edições Quetzal / Casa Fernando Pessoa, 2000

domingo, 29 de setembro de 2013

NÓS, OS ANIMAIS


"[...] Não sendo imediatamente visível que configuração de homens corresponde a tal mundo pós-histórico – um mundo de Ronaldos, nas mais diversas atividades e profissões; o american way of life; um regresso à condição de «bom» selvagem, na selva urbana e não urbana – e independentemente de isso não constituir necessariamente uma «catástrofe cósmica», como diz Alexandre Kojève (p. 158), vale a pena, julgo eu, privilegiarmos momentos em que o animal que somos ainda é uma experiência possível para os homens."


David Antunes, "Nós, os animais" - AQUI

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

EMANUEL JORGE BOTELHO


ANTERO DE QUENTAL, O ANJO CANSADO


     os dias iam indo sem sair da noite.
     todas as manhãs um cão entrava nos seus passos para lhe fazer companhia.
     colocou tudo dentro de uma rasura de soneto e fechou a porta.
     fechar a alma era coisa já antiga. como uma rosa que esqueceu o seu nome e já não sabe as palavras da cor.
     a vida poucas vezes lhe deu tempo de guardar no bolso o que era do silêncio, esse riso de hiena armadilhado que põe mel no rumor do medo.

     chegou ao Campo de São Francisco à hora que acordara.
     a morte já lá estava com as asas recolhidas.
     sentou-se, deu ao cão um longo afago, aconchegou-o junto às pernas, e deixou pousar nos lábios o sal de duas lágrimas.
     depois, devagarinho, tirou do bolso a mão direita e deu dois tiros na morte.

     no chão, desde aquele dia, ficou o recorte de uma sombra.
     quem a vê, dá-lhe o nome de sudário.
     e reza.


Ilha de S. Miguel, Açores


[in Cão Celeste n.º2, Lisboa, Outubro 2012]

terça-feira, 10 de setembro de 2013

QUANDO A ESCOLA DEIXAR DE SER 
UMA FÁBRICA DE ALUNOS

por
CATARINA FERNANDES MARTINS