terça-feira, 7 de outubro de 2014

A. M. Pires Cabral


5.


Não estou só
Recrutei companheiros para o Inverno
que não o temem como se teme um lobo,
mas apenas como é justo que se tema
o desdobrar das páginas do tempo:
com decoro. Então
aconchegados a mim, e eu a eles.
Somos uma parede.

Mas há quem esteja só
e assim deva ficar.

A esses, tudo aquilo que o nocivo
Inverno lhes trouxer
recordará o que ficou retido
nas levianas demasias do Verão.

As cartas que usarão como recurso
contra a ausência do Sol
ninguém lhas lerá, ser-lhe-ão devolvidas
com um carimbo maquinal: «Desconhecido
neste endereço». Cartas descompostas
de terem ido e voltado.
Cartas que em boa verdade
escreverão a si mesmos
sob outros nomes e moradas. Cartas
semelhantes a ardilosos bumerangues
ou a cães ensinados a voltar para nós,
trazendo na boca, molhado de saliva,
o pau que arremessámos.


Lisboa: Averno, Novembro de 2004

domingo, 21 de setembro de 2014

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA DIÓGENES 2013




O Prémio Nacional de Poesia Diógenes, atribuído pela revista Cão Celeste e com o valor pecuniário de €1500, distinguiu, de entre os livros publicados em 2013, Uma Viagem no Outono, de Rui Nunes (Lisboa, Relógio D’Água). 
     O júri quis homenagear a eficácia com que a forma híbrida trabalhada por Rui Nunes neste livro traduz, esteticamente, o mal-estar civilizacional em que vivemos. Esse mal-estar é mostrado na sua complexidade social, cultural e política, mas sempre através de modulações subjectivas que lhe conferem a autenticidade e o dramatismo com que é vivido singularmente por cada um daqueles que por ele são atingidos.
     A decisão do júri – constituído por Diogo Dória, Emanuel Jorge Botelho e Rosa Maria Martelo – foi tomada por unanimidade.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

OS CÃES

Os rapazes não serviam para nada. Nos dias em que não chovia iam para o penedo da curva do rio imitar o vento. Se fazia calor empanturravam-se de amoras e corriam para a charca onde se deixavam ficar até o sol desaparecer por detrás dos silvados mais altos. Nos dias de muito frio aninhavam-se abraçados um ao outro e iam cuspindo para o lume se calhava alguém falar no diabo. De Verão e de Inverno nus da cintura para baixo. Sempre nus. Não tinham préstimo, os rapazes, quando os foram buscar à várzea e os puxaram de dentro das ramadas bravas de um vinhedo, rente à levada, e os acartaram num carro de bois pela serra acima para os devolver aos pais. Na terra toda a gente dizia que os pais dos rapazes eram irmãos. Não importava, desde que se mantivessem arredados naquela granja da meia encosta, quase na cumeada, sem luz nem água; cheia de esterco à volta – das cabras, dos cães e dos rapazes.

Os pais dos rapazes viviam de levar as cabras para a serra e de carregar mato para uma ou outra casa grande. No povo ninguém lhes dava trabalho. Não os chamavam para jorna nenhuma nem se esqueciam do dia em que a mulher pariu os dois moços, havia mais de vinte Invernos, naquela granja batida a chuva, com a ajuda da velha, a sua mãe, enquanto os dois homens saíam para o temporal, o novo com o cajado a roçar nas urzes e a gritar com as bestas serra acima, o velho com uma corda do mato a tiracolo a descer na direcção do carvalhal. O velho foi pendurar-se num galho e ficou para ali até o povo dar com ele. O vento a uivar-lhe na boca escancarada como acontecia aos esfaimados que se enforcavam por falta de sustento. Contava-se que não tinha querido ver os moços por serem filhos de quem eram. Era o que se dizia, porque aos da granja mal se lhes ouvia a voz. A velha e o casal eram de parcas palavras e os rapazes nunca tinham aprendido a falar. Percebiam o que se lhes dizia, entendiam-se com os cães, os pássaros e os outros bichos. Mas não falavam.

[...]


Alexandre Sarrazola, Neófitos
Lisboa: Averno, 2014




[Fotograma: Andrei Tarkovsky, 'O Espelho', 1975]

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

domingo, 3 de agosto de 2014

PENÉLOPE


Encontrava-a aos domingos
com a teia de crochet, perto
do estádio. Ulisses regressava
a Ítaca, no fim de mais um
jornada de águias, dragões
e outros monstros. Argos
no banco de trás, abanava a cauda
para não morrer de velho.


- INÊS LOURENÇO

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Miguel Martins


Faltam cinco semanas, quase à justa,
para ficar sem casa, para ficar sem lua
(de merda, mas lua) onde aguardar a morte.
Faltam cinco semanas, talvez menos,
para que esta casa, como as outras,
seja uma linha na vã biografia
de tudo o que não fui e não serei.
Faltam cinco semanas (menos mal?)
para ingressar no nomadismo extremo,
desporto radical ao acesso dos velhos
com metade dos dentes e a estupidez inteira.
Eu não gosto de cães, gosto de tectos,
e faltam cinco semanas, mais ou menos,
para viver nas sombras de um canil
a que parece que se chama mundo.


- in Telhados de Vidro n.º 19, 
Lisboa: Averno, Maio de 2014



quinta-feira, 17 de julho de 2014

AURORA(S)


"Era um cão com muita teoria"
- explicou-nos, junto ao aquecedor,
na certeza de que Todorov
não frequenta a travessa do Alcaide,
ao Combro. Aurora. Dona Aurora:
guardiã provisória do declínio
(cor-de-laranja, juro) das paredes
ou dos dias - não há diferença.

Fiz questão de tirar eu próprio
do frigorífico a segunda Sagres.
Já houve naquela rua sete auroras
- não é um verso, apenas um dado
estatístico, vindo de quem sabe.
Algumas, como "histórias verdadeiras",
casaram ou morreram - tanto faz.

O cão, sem nome, aceita o favor
da trela nesta "noite demasiado morta"
(volta a dizer Aurora). É normal,
há coisas que acontecem sob a sombra
desmentida da cidade. Piano, dessa infância
triste, a apodrecer agora numa taberna
colorida. "P'ra mim é tinto" - repetem
já sem clientes os mais pequenos altares.

Enquanto um tecto sobre nós, vazio,
esconjura metáforas e recusa a noite.


Manuel de Freitas, [Sic],
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ele podia ouvir os cães à distância, e os seus latidos
levaram-no até à capela que se erguia junto à estrada,
mas não entrou nela. Isto ficava aquém de rezar,
e os cães negros eram apenas os seus pensamentos de noites de terror
através das rígidas e gratificantes florestas de Santa Cruz;
o coração dele coxeia, borbulhando sangue como bagas no seu caminho,
três ou quatro cristas de palmeira, e os berros loucos dos papagaios
são como o rumor dos testemunhos num julgamento obsceno,
mas atravessam o céu róseo e desvanecem-se, e regressa o consolo.
Na quente, oca tarde um grito atravessa o vale,
um falcão plana, e atrás da chama das perpétuas uma colina arde
com uma flauta de fumo azul; isto é tudo o que há de valor.
Ó folhas, multiplicai os dias da minha ausência para os subtrair
à humilhação do castigo, à emboscada da desgraça
pelo que são: excremento que não merece nenhum tema,
nem o nó e o aprumo de um cedro ou a erva branda,
apenas o desdém da indiferença, escapar à tempestade de abusos
como o ágil movimento dos ramos que se agitam com a graça
da resistência, curvando-se do mesmo modo que o bambu obedece
às rajadas horizontais de chuva, não enquanto martírio
mas enquanto complacência natural; abaixo dele havia uma casa
em que sem qualquer ferida era mais do que bem vindo,
e cães dóceis vinham até ao portão atraídos pela sua voz.



DEREK WALCOTT
[Trad. Inês Dias]