terça-feira, 25 de setembro de 2012


Houve um período, entre meados do século XVIII e fins do século XIX, em que os escritores tinham o poder de influenciar as leis ou os costumes. Poetas, philosophes, romancistas, dramaturgos eram escutados e discutidos, as suas obras geravam interesse, podiam chocar ou deliciar a nascente Opinião Pública. Um artigo de jornal podia abrasar parlamentos, um livro podia ser censurado e apreendido, um autor podia ser adulado ou chantageado, condenado a comendas ou calabouços. Porque se lhe reconhecia poder de influência, a literatura era levada a sério (ou seja, temida) pelas autoridades políticas, económicas, militares, eclesiásticas.

Depois surgiram os meios de comunicação de massa, democratizou-se a arte, liberalizaram-se os costumes, o autoritarismo e o moralismo caíram de moda na imprensa burguesa, a consciência livrou-se dos velhos constrangimentos das eras metafísicas ou religiosas, e a espécie humana entrou num processo de juvenilização. A seguir à Primeira Guerra Mundial, bengalas e chapéus perderam estatuto, subiram os salários e as bainhas das saias, o povo das igrejas passou às danceterias e aos grandes armazéns, o chicote foi substituído pelo volante.

Aos poucos, um escritor que aspirasse a ser perseguido por delito de opinião não tinha outro remédio senão mudar-se para um regime ditatorial. É certo que nas democracias parlamentares um livro podia ainda ser banido por ofensa às instituições ou à moral burguesas, mas essa criminalização já não passava dum reflexo atávico e dum anacronismo; um anacronismo político, ao atribuir ao literato uma influência que ele já deixara de ter, mas também económico, ao não perceber o potencial escravizador da chamada “libertação sexual”, que a singela geração dos baby-boomers julgava intrinsecamente revolucionária. O tempo de Zola, e de D. H. Lawrence, havia passado irremediavelmente. E, com a possibilidade de controlo do espaço comunicacional pelos equalizadores publicitários e propagandísticos, dos intelectuais já nada havia a temer; pela primeira vez na história, um escritor tinha toda a liberdade para dizer o que quisesse, porque se havia tornado invisível, isto é, irrelevante.

O primeiro género literário a desaparecer do radar cultural foi a poesia, ainda no século XIX, quando os poetas viraram costas às expectativas burguesas para seguirem uma via de especialização que os deixaria a falar apenas uns com os outros, à maneira dos físicos ou dos matemáticos; com isso, inevitavelmente, a poesia ganhou em intensidade expressiva o que perdeu em leitores. Quanto ao romance e ao teatro, puderam conservar por mais algumas décadas, se não a influência, pelo menos um certo prestígio. E um indício desse remanescente de prestígio da cultura letrada e humanista em geral era que, ao contrário do que hoje sucede, nenhum membro do escol confessaria de bom grado a sua ignorância dos Grandes Vultos da Literatura, clássicos ou modernos. Podia não os ler, mas, a menos que quisesse passar por bárbaro ou industrial norte-americano, sentia-se obrigado a fingir que sim.

Algo de semelhante ocorreu no palco da atenção popular, embora aí a literatura séria nunca tenha chegado verdadeiramente a assentar o pé; mas onde esteve mais perto de o conseguir (em certos círculos de ilustração proletária), foi apenas para se ver sucessivamente ultrapassada pelo cinema, a rádio e a televisão, num movimento geral da actividade leitora para a inércia espectadora, da literacia para o consumo de imagens, do maior para o menor esforço. Perdida a tribuna da atenção letrada, que durante duzentos anos ocupou quase sem competidores, e fracassada a emancipação do povo através da alfabetização, idealizada pelo Iluminismo, o intelectual ficou sem objecto para as suas comunicações depressivas ou exigentes.

Em seu lugar surgiram mestres da oralidade que, ao contrário dos seus homólogos antigos, como Sócrates ou Cristo, não pretendem exortar o seu auditório a qualquer esforço de auto-superação intelectual ou espiritual. Solidamente implantados nos púlpitos duma comunicação social cartelizada, e auxiliados por técnicas de excitação emocional descobertas pela psicologia de massas, estes novos comunicadores tiram partido da natureza acomodatícia da mente humana para degradarem qualquer impulso de individualidade num narcisismo consumista e numa passividade apolítica que servem perfeitamente os interesses do poder. Deste modo, o ruído impera incontestavelmente sobre a palavra nos sistemas de comunicação dominantes, e a sedução sobre a persuasão, a propaganda sobre a informação.

Que a mistificação se tornou absolutamente instrumental para os detentores do poder, é algo que se pode aquilatar pelo progresso do eufemismo nos meios de comunicação social. Assim, e a título de exemplo, não é por acaso que hoje se pretende chamar “colaborador” ao trabalhador, que ao corte de salários e à apropriação privada de bens públicos se chama “reforma estrutural”, que à resistência anti-colonialista se chama “terrorismo” e ao terrorismo de Estado “libertação”, que se chama “democracia” à oligarquia e “lobbying” ao tráfico de influências. Escusado é notar que este esvaziamento semântico de palavras ou conceitos, tidos como “problemáticos” para a rede de poder global, tem como propósito introduzir ruído no espaço comunicacional, para que os homens, privados dum vocabulário comum, deixem de poder comunicar entre si. Uma estratégia, diga-se, com provas dadas desde o Antigo Testamento, tal como nos conta a história da torre de Babel.

Ora, que futuro pode ter a forma de indagação e de expressão a que chamamos literatura num espaço comunicacional tomado por exércitos de entertainers empenhados em difundir a surdez, a poluição lexical e a desinteligência? Que a literatura teria um papel central em tão necessária despoluição da língua, parece ser inquestionável. Mas é mais do que evidente que a presente invisibilidade do escritor torna este desígnio tão irrealista como o de purificar um Atlântico de fezes com dois cálices de cloro. Neste contexto, é inevitável perguntar: estará a literatura séria condenada à extinção por falta de leitores, perdida na torrente de trivialidade que inunda e monopoliza o espaço da atenção pública?

[...]

Sejamos realistas: se o processo de infantilização e embrutecimento do homem que alimenta o dinamismo capitalista prosseguir ao ritmo dos últimos decénios, dificilmente se imagina um jovem de 2070 a ler Séneca ou Montaigne, Tolstoi ou Joyce, T. S. Eliot ou Jorge de Sena. Por outras palavras, se nada for feito para conter a massificação do indivíduo e a sua violação moral e intelectual por hordas de comunicadores bárbaros, o mais provável é que a literatura siga o rumo de extinção a que parecem já hoje condenadas a liberdade política, a água potável, a vida marinha ou a fauna selvagem, e que as catacumbas que acolhem ainda os refugiados da literatura se convertam em túmulos selados.

A única circunstância que tornaria talvez possível o ressurgimento da cultura letrada e humanista seria uma catástrofe energética que nos fizesse voltar às velocidades romanescas do século XIX. Será essa a condição e o preço da sobrevivência da literatura, uma catástrofezinha de proporções bíblicas ou homéricas? Visto de 2012, dir-se-ia que sim. Se for esse o caso, porém, podemos estar optimistas, já que o apocalipse ecológico/económico parece irrevogável, convocado pelas trombetas duma ideologia assente na estúpida ilusão de “crescimento” infinito num planeta de recursos limitados.

Sendo estas as perspectivas, o futuro das letras, tal como o da espécie humana, só poderá ser pós-apocalíptico. Significa isto que um escritor dos nossos dias só pode apostar nos incertos leitores do século XXII. Até lá, a existência da literatura está simplesmente condenada a uma longa agonia.


José Miguel Silva, 
"Divulgações sobre o futuro da  literatura numa era de ignorância programada e pré-apocalíptica" 

TRATADOS COMO CÃES
(UM TÍTULO DE JORNAL)


A um Poeta de dezassete anos



Cumpre-nos fazer imensa coisa.
Cumpre-nos odiar a natureza.
Cumpre-nos adiar a natureza.
Cumpre-nos matar para não morrer, e vice-versa.
Cumpre-nos saber escolher meticulosamente os termos: senhor, dinheiro, fuso horário, compromisso, falcatrua, mostruário de vermes, atenção ao trânsito, postos, subalternos, garrafa queimada, omissão das ciências naturais.
Cumpre-nos estudar o mundo do avesso.
[…]
Cumpre-nos não ser tratados como cães.


Raul de Carvalho, Quadrangular, 1976

quinta-feira, 30 de agosto de 2012



Larry Towell, "A dog is seen through the photographer's eyeglasses", El Salvador, 1991

quinta-feira, 19 de julho de 2012

ARTIGO NÃO REVOGADO



Os poetas, à semelhança dos cães celestes,
serão sempre identificados pelos dentes.

Ricardo Álvaro

segunda-feira, 16 de julho de 2012

CÃO ATÓMICO


1.

Este cão tem folhas nas orelhas,
Com quatro talos:
Mas o que este cão devia ter era calos,
E só tem olhos e osso
E morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
Quase o diria meu irmão:
Parece gente!


2.

Este cão é redondo. Está deitado,
Rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
Mas perdeu a alcateia
Como os homens perderam a Razão,
Que hoje serve de osso ao cão
Escapo ao cogumelo nuclear,
E por essa razão se foi deitar.


27 de Maio de 1971



Vitorino Nemésio, "Cão Nuclear, Etc. e Bio-Poemas"
in Obras Completas Vol.II – Poesia, Lisboa: INCM, 1989


domingo, 15 de julho de 2012

Prémio Nacional de Poesia Diógenes



O prazo foi prolongado até dia 31 de Julho de 2012.



Cláudia Dias - Daniela Gomes - Diniz Conefrey - Isabel Baraona - José Feitor - Luís Henriques - Manuel Diogo - Maria João Worm

*

Manuel de Freitas - António Barahona - Paulo da Costa Domingos - Rosa Maria Martelo - Luís Miguel Queirós - Vasco Graça Moura - Silvina Rodrigues Lopes - João Barrento - António Guerreiro - Jorge Roque - José Miguel Silva - Mariana Pinto dos Santos - David Teles Pereira - Inês Dias - Diogo Vaz Pinto

terça-feira, 10 de julho de 2012

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Novas criaturas surgem da terra, com as narinas mordiscando o ar,
os esquilos abundam e repetem-se como perguntas,
os vermes continuam a investigar até as folhas repetirem quem são,
mas aqui temos apenas uma calma sem estações,   
e sem história, que é tédio interrompido pela guerra.
A civilização é impaciência, um frenesi de térmitas
em redor dos formigueiros de Babel, antenas transmissoras
e mensagens; mas aqui o caranguejo-eremita acobarda-se quando encontra
uma sombra e pára até a do eremita.
Um medo escuro da minha sombra alongada, confesso,
para este caranguejo escrever “Europa” é ver aquela criança agachada
junto a um canal sujo em Rimbaud, chaminés, e borboletas, pontes antigas
e as manchas sombrias de resignação à volta dos olhos de carvão
de crianças que se parecem todas com Kafka. Treblinka e Auschwitz
descendo o rio com o fumo de barcaças industriais
e a prosa de uma página a que sacudo as cinzas,
os túmulos dos buracos de caranguejo, a ampulheta dos séculos
que passaram sobre esta baía como o pó soprado pelo harmatão
das nossas tribos, dispersando-se sobre as ilhas,
e a lua erguendo-se na sua procura, como a lanterna de Diógenes
sobre a esfinge do promontório, de equilíbrio e justiça.



Derek Walcott
[Trad. ID]

quarta-feira, 6 de junho de 2012

FRUTOS SECRETOS

Emanuel Jorge Botelho, Vigílias do Terceiro Dia (Para o Urbano), Ponta Delgada, Edição do Autor, 2011; Palavras em Busca de Meu Pai, no Endereço que Calculo, Ponta Delgada, Edição do Autor, 2011.


Emanuel Jorge Botelho é, em boa parte por deliberação própria e respeitável, um «poeta invisível». Há vários anos que a maioria das suas publicações têm tiragens limitadíssimas, sendo muitas delas destinadas exclusivamente a ofertas. Ainda assim, convém lembrar que, na década de oitenta, o autor publicou vários livros em editoras de prestígio, como a & etc. ou a Frenesi, o que torna menos compreensível a ausência deste poeta na pretensa e pretensiosa antologia «totalitária» intitulada Poemas Portugueses (Porto, Porto Editora, 2010). Digamos, para abreviar, que Emanuel Jorge Botelho está em boa companhia, pois também não figuram, nessa antologia que supostamente nos oferece o século XX português na íntegra, os nomes de Emanuel Félix, António Barahona ou José António Almeida.
Em 2011, Emanuel Jorge Botelho publicou duas plaquetes, correspondendo cada uma delas a um único poema. São ambas edições fora do mercado, mas isso não constitui motivo para que sejam criticamente ignoradas por quem lhes teve acesso. Vigílias do Terceiro Dia (Para o Urbano) tem, desde logo, a particularidade de a dedicatória ser parte integrante do título. E, para quem não saiba, Urbano tem sido um assíduo companheiro do poeta, em livros tão graficamente irrepreensíveis como Ruídos da Luz (2007), As Flores e as Cinzas (2009) ou Antero de Quental, a Vida e uma Manhã (2010). Mas, aspecto ainda mais relevante, a leitura de Vigílias tem tudo a ganhar se conhecermos a obra plástica de Urbano, com a qual estes versos exemplarmente dialogam. É de assinalar, aliás, que cinco das sete estrofes deste poema são interrogações, que de modo nítido e conciso nos reenviam para o universo artístico de Urbano: «a quantas árvores / deste o nome da terra? // quantas vezes a cor foi, / na tua mão, / a prece lavada / do silêncio do mundo?». Simultaneamente, este belíssimo poema diz-nos muito acerca da poética de quem o escreve, assente, nos seus melhores momentos, nessa obstinação de esculpir, longe do ruído, uma «prece lavada» ou um «segredo branco». Tratando-se de um poema de amizade e homenagem, cuja capa consiste num desenho isolado de Urbano, Vigílias é também um pequeno desdobrável em que a memória das coisas e dos seres se dissipa rumo ao intemporal (ou à «hora de Deus», como sugere a epígrafe de Rilke) que caracteriza, afinal, a grande poesia: «que idade tinhas / quando a primeira árvore / te disse para subires?». Assim, precisamente, termina este breve poema – um dos textos mais marcantes que o ano de 2011 me deu a conhecer.

Palavras em Busca de Meu Pai, no Endereço que Calculo é, por sua vez, um poema dedicado ao pai do poeta, José Maria Botelho (1923-1999). Mas logo percebemos que este luto distanciado – se é que, na morte de um pai, pode alguma vez existir distância – recusa o caminho fácil da grandiloquência ou do pranto derramado. Em vez disso, e lembrando sem dívidas um tom caro ao também açoriano Vitorino Nemésio, as primeiras palavras são de um coloquialismo desarmante: «mais dia, menos dia, José, / apareço por aí, / levado, à boleia, pelo alazão da morte.». A prosódia – seca, contida, mas veemente – é aqui sabiamente cinzelada de estrofe em estrofe, num ritmo tão lírico quanto epistolar: «guarda-me um lugar de alma / a dois palmos da tua mão, / por causa do gume da noite / ou do silvo de cada manhã. // e deixa dormir o meu silêncio / com a face pousada no teu ombro, / enquanto, baixinho, a tua voz / chama pelo nome cada lágrima.». A termos de fazer uma comparação musical, dir-se-ia que esta tensão poética, forte e enxuta, mais depressa se avizinha da rígida introspecção de um Sainte-Colombe do que dos sobressaltos românticos ou da solenidade barroca de Lully e Haendel. A única – e última, aqui – exclamação é sabiamente guardada para o verso final: «boa noite, meu pai!». Pouco mais, entre trevas, se pode dizer a um morto que em nós se tornou imenso.


- Manuel de Freitas
in Cão Celeste, n.º1

sábado, 2 de junho de 2012

AO CREPÚSCULO

Ao atravessar o bosque
vi as seguintes coisas:
um gato, deitado, a olhar para mim;
uma cabana vermelha em que não podia entrar;
o esgar branco da raposa apanhada;
a aranha numa garrafa de leite,
aconchegando a mosca enfaixada,
embalando-a no seu sono;
umas chaves de carro, penduradas numa árvore;
uma fogueira, ainda quente, e um osso
do tamanho do meu braço, o meu nome
gravado nele, com erros.
O cão deixou-me aí,
e eu continuei sozinho.


Robin Robertson
[Trad. ID]
 
Corpo estranho, olhar vazio, duplo não
dizer nada e um cão. Aquela vida toda
sob o peso do entusiasmo, a armadilha
e o cúmulo até à vala negra
de temporariamente excluído.


Rui Baião, Rude,
Lisboa: Averno, 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

28 de octubre de 1935

Si pienso en una lengua y escribo “el perro persigue a una liebre por el bosque” y quiero traducirlo a otra lengua tendré que decir “la mesa de madera blanca hunde sus patas en la arena y muere casi del susto al reconocerse tan [idiota]”


PABLO PICASSO