terça-feira, 10 de junho de 2014

CÃO CELESTE # 1 a 5




Abel Neves, Alberto Pimenta, Alexandre Sarrazola, Ana Menezes
Ana Isabel Soares, André Lemos, António Barahona, António Guerreiro, 
Bárbara Assis Pacheco, Beatriz Hierro Lopes, Bruno Borges
Cláudia DiasDaniela Gomes, David Antunes, David Teles Pereira, 
Diniz Conefrey, Diogo Vaz Pinto, Emanuel Jorge Botelho, Étienne Carjat, 
Fabiano Calixto, Fernando Augusto, Gavarni/Estúdios &etc, Filipe Abranches
Inês Dias, Isabel Baraona, Isabel Nogueira, Joana Matos Frias, 
João Barrento, John MateerJorge Roque
José Ángel Cilleruelo, José Feitor, José Miguel Silva, Konoe Nobutada, 
Luca Argel, Luís Filipe Parrado, Luís FrançaLuís Henriques
Luis Manuel Gaspar, Luís Miguel Queirós, Manuel de Freitas
Manuel Diogo, Maria da Conceição Caleiro, Maria João Worm, 
Mariana Pinto dos Santos, Miguel de Carvalho, Pádua Fernandes, 
Paulo da Costa Domingos, Renata Correia BotelhoRicardo Castro, Ricardo Marques, Rosa Maria Martelo, Rui BaiãoRui Caeiro
Rui Catalão, Rui Nunes, Rui Pires Cabral, Rui Silva
ShitaoSilvina Rodrigues Lopes, Stéphane Lermais 
e Vasco Graça Moura. 

Slow Poetry



quarta-feira, 28 de maio de 2014

SEGUNDO A LEI


Os três caçadores vinham muito fatigados
E subiam. Não traziam cão. Ao longe
Muito longe, um aceno e um grito
É de crer que este lá em baixo
Tivesse deixado ir o cão
Levado para uma mina.
Após um momento, e não entendendo
Talvez o que o homem queria, prosseguiram
O poço será diferente do exílio esta vez.


Gil de Carvalho, Amazonas e Cia,
Lisboa: Paralelo W, 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

THE PRICE OF EVERYTHING


Money is getting noisier.
He comes home at night
with figures jingling in his head.

Money is getting taller.
It whistles down at him
from new scaffolding in the old sites.

Money is getting long-faced.
It keeps his fingers busy
when he would rather be undoing a button.

Money is getting ambitious.
It wants him to sell his old banger
and sit a girl down  beside him in comfort.


Andrew Motion, The Price of Everything,
Londres, Faber and Faber, 1994

sábado, 28 de dezembro de 2013

Beatriz Hierro Lopes


A rua era garganta. Voz de acordeão cego. Banco desdobrável para não se fazer esperar demasiado tempo à hora da partida. À entrada do bazar, de música alinhavada ao sobretudo preto, o velho usava de uma cegueira quase branca, quase azul, exposta à via pública. No pulso esquerdo, um cordão pintado de verde ligava-o ao pescoço de um vadio de pêlo ralo que sabia da música pela vibração do fio ao traduzir o movimento dos dedos do seu senhor sobre as teclas. [...] - CONTINUA AQUI

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UMA ESPÉCIE DE CONTO DE NATAL


Reuniam-se aos domingos à tarde
na leitaria
com os casacos de pele de zebra e os bichos
ao pescoço de olhos de vidro
na juventude tinham sido
criadas de servir
e toda a vinha tinham lutado
por uma boneca loira em cima da cama
com colcha de cetim cor-de-rosa e passamanarias
a ponto de dormirem no chão
transidas de frio
bebiam chá comiam torradas
com muita manteiga
e pediam bolos de creme colorido
uma vez por outra o criado simpático
(havia um outro mas com maus modos para elas)
conseguia arranjar-lhes restos
de bolo de noiva
e as três exultavam então
só por acanhamento não encomendavam
um bolo de noiva para as três
num dia de Natal particularmente frio
sentiram qualquer coisa
nas saias plissadas
era um rato vulgar com um olhar
muito meigo e assustado
afeiçoaram-se logo ao animal
que levaram para casa comovidas
chamavam-lhe o nosso menino lindo
e consentiam-lhe tudo
o rato de noite roía as três bonecas
e as três de manhã iam contemplar os estragos
como aquelas pessoas que se deixam ficar paradas
diante da casa onde se consumou o crime hediondo
ao menos podiam ter arranjado um cão
ou uma criança da Santa Casa
quando o rato adoeceu chegaram a ser insultadas
nas salas de espera das clínicas veterinárias
(a excentricidade nos afectos mais tarde ou mais cedo
sai cara)
o rato ficou internado uns dias
e elas suspeitaram que tinha sido trocado
desconfiaram então muito das instituições
o mundo afinal era uma encenação
e não valia a pena perguntar
se um criado um veterinário ou um bolo de noiva
eram a sério ou a fingir
só se podia tentar averiguar se a encenação
revelava bom gosto ou não


ADÍLIA LOPES

sábado, 14 de dezembro de 2013

QUESTÕES DE VOCABULÁRIO




"Em Portugal, e não só, esta novilíngua tem sido bastante eficaz a fissurar as relações entre os trabalhadores das entidades privadas e dos serviços públicos, e igualmente eficaz a gerar sentimentos de culpa entre os cidadãos, já que tudo o que se prende com serviços sociais do Estado tende a ser apresentado como um peso, um despesismo sem retorno (como se não tivesse relação com os impostos que pagamos). Neste contexto, flexibilidade é o conceito normalmente usado para conferir uma sugestão de dinamismo social e económico ao que não é senão precariedade nas relações laborais."

Rosa Maria Martelo
in Cão Celeste n.º4, Lisboa, Novembro de 2013