terça-feira, 22 de setembro de 2015
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
SOL E SOMBRA
"[...]
Sem a recusa dos compromissos com todos os agravos inerentes é impossível arriscar a heresia no sentido de que fala Consolo. Em tempo de nivelação tão global num país onde a opinião pública é balbuciante tudo se agrava ainda mais. E embora pareça pouco poético falar por exemplo de meia dúzia de pinheiros com centenas de anos arrancados a uma praça vampirizada pelos automóveis, ou da libertação de um chimpanzé adolescente acorrentado no meio de destroços, o poema vai-se edificando também nesses martírios, essas rugosidades e manchas.
[...]
O poema, que também faz parte da horda errando nesta esfera que poucos soubemos resguardar, não pode isolar-se das suas dores e fealdades. É preferível narrar o nosso tempo letal nem que para isso se tenham de inventar outras palavras e uma poesia às vezes tão bruta como tudo aquilo a que vamos assistindo.
[...]"
Fátima Maldonado
in Cão Celeste n.º 7, com ilustração de Ana Menezes,
Lisboa, Agosto de 2015
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
Cão Celeste #7
Colaborações de:
Abel Neves - Alexandre Sarrazola - Ana Biscaia - Ana Menezes - Ana Teresa Pereira - António Barahona - Beatriz Hierro Lopes - Bruno Borges - Bruno Dias - Cláudia Dias - Daniela Fortuna - Daniela Gomes - Débora Figueiredo - Diniz Conefrey -
Fátima Maldonado - Filipe Matos - Gil de Carvalho - Hugo Pinto Santos - Inês Dias - Inês Lourenço - Isabel Baraona - Isabel Nogueira - João Concha - John Mateer - Jorge Roque - José Ángel Cilleruelo - José Tolentino Mendonça - Julián Axat -
Luís França - Luís Henriques - Luis Manuel Gaspar - Manuel de Freitas -
Manuel Diogo - Maria João Worm - Marta Chaves - Martin Copertari -
Mauricio Salles Vasconcelos - Pádua Fernandes - Paulo da Costa Domingos -
Ricardo Álvaro - Ricardo Castro - Ricardo Marques - Rui Caeiro
- Tiago Manuel - Vasco Silva
sábado, 1 de agosto de 2015
DIALOGO DEL PERRO Y DEL ANGEL
El perro le dijo al ángel: "yo te beso"
el ángel le dijo al perro: "yo te muerdo"
el perro le dijo al ángel: "yo te canto"
el ángel le dijo al perro: "yo te ladro"
el perro le dijo al ángel: "yo te alabo"
el ángel le dijo al perro: "yo te meo"
el perro le dijo al ángel: "yo te leo"
y el ángel: "cállate que me estropeo!"
Carlos Edmundo de Ory, Sin Permiso de Ser Ángel,
New York: Vanguardo Editions Gas Station, 1988
sexta-feira, 29 de maio de 2015
DA ORTOGRAFIA NOVA, DIZEM
Passo a passo o gandulo
Ainda bota acento no cú
Perante os espetadores
Que dizem ah para os lados de chelas
Ou fazem oh
Chegados a s. bento
O estilo
(cagança semiótica)
Vai além da gravata
Ou fralda de fora
Ser côxo é outro modo
De caminhar entre a arrogância
É tudo uma questão de bons-dias
Nunes da Rocha, Sabão Offenbach,
Lisboa: &etc, 2015
segunda-feira, 25 de maio de 2015
Manuel de Freitas
Sabes tão bem como eu
que a Rua de Santa Maria
não tem fim. Ladeia o oceano,
demora-se junto de cães sentados
e oferece quando pode um cigarro
à primeira puta que afasta as cortinas.
Para trás fica o comércio,
indiferente ao sino cansado
da Sé e aos gins (se te lembras)
do Sunny Bar. Mas passámos já
a débil fronteira, depois do Mercado.
Pontas de charros no chão - um aviso.
Ou as mulheres que se encostam
às portas pequenas que nos chamam
para o último copo de Jacquê.
Como se fosse (digamos assim) a vida
e tivesse agora tanto espaço para morrer.
In Sunny Bar, sel. de Rui Pires Cabral,
Lisboa: Alambique, 2015
sábado, 9 de maio de 2015
A ASSOMBRAÇÃO
Eu sou o cão que tu puseste a dormir,
como gostas de chamar à agulha do esquecimento,
e volto para te dizer esta coisa simples:
nunca gostei de ti - nem por um momento.
Quando lambia o teu rosto,
pensava em morder-te o nariz.
Quando via como te secavas com uma toalha,
apetecia-me saltar e castrar-te num instante.
Detestava a maneira como te movias,
a tua falta de graça animal,
a maneira como te sentavas numa cadeira para comer,
com um guardanapo no colo e a faca na mão.
Eu teria fugido,
mas era muito fraco, um truque que me ensinaste
quando ainda estava a aprender a sentar e a deitar,
e - o maior dos insultos - a apertar a mão sem ter uma.
Admito que a visão da trela
me entusiasmava
mas apenas por que significava que estava prestes
a cheirar coisas que nunca tinhas tocado.
Podes não querer acreditar nisso,
mas não tenho nenhuma razão para mentir.
Odiava o carro, os brinquedos de borracha,
detestava os teus amigos e, pior, os teus familiares.
O tilintar da minha chapa levava-me à loucura.
Sempre me fizeste festas no sítio errado.
Tudo o que sempre quis de ti
foi comida e água fresca nas minhas tigelas de metal.
Enquanto dormias, ficava a ver-te respirar
à medida que a lua ia subindo no céu.
Foi precisa toda a minha força
para não levantar a cabeça e uivar.
Agora estou livre da coleira,
da gabardina amarela, da camisola com monograma,
do absurdo do teu relvado,
e isso é tudo o que tu precisas de saber sobre este lugar
excepto o que já calcularas antes
e te deixa feliz porque não aconteceu mais cedo -
que todos aqui conseguem ler e escrever,
os cães em poesia, os gatos e os outros em prosa.
Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014
quinta-feira, 23 de abril de 2015
FIDELIDADE
Silvina Rodrigues Lopes, "O nada que se vive, que se escreve. Jorge de Sena",
Cão Celeste, n.º 1, Lisboa, Abril de 2012
segunda-feira, 23 de março de 2015
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
EXPOSIÇÃO
Com a participação de:
Ana Menezes, André Lemos, Bárbara Assis Pacheco, Bruno Borges, Cláudia Dias,
Daniela Gomes, Diniz Conefrey, Filipe Abranches, Isabel Baraona, João Chambel,
Luís França, Luís Henriques, Luis Manuel Gaspar, Manuel Diogo, Maria João Worm,
Ricardo Castro, Rui Pires Cabral e Rui Silva
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
EMILY DICKINSON / HAKIM BEY
The Stillness in the Room
Was like the Stillness in the Air –
Between the Heaves of Storm –
The Eyes around – had wrung them dry –
And Breaths were gathering firm
For that last Onset – when the King
Be witnessed – in the Room –
I willed my Keepsakes – Signed away
What portions of me be
Assignable – and then it was
There interposed a Fly –
With Blue – uncertain stumbling
Buzz – Between the light – and me –
And then the Windows failed – and then
I could not see to see –
EMILY DICKINSON
*
A Terra precisa tanto de mais parques de estacionamento
como nós precisamos de mais remendos de asfalto
implantados no rosto e nos órgãos genitais
para que minúsculos discos voadores
do Planeta dos Germes Extraterrestres
possam estacionar em nós como as moscas
que E. Dickinson ouviu zumbir
à volta da sua cabeça quando morreu.
HAKIM BEY
in Cão Celeste n.º4, trad. Inês Dias, Lisboa, Novembro de 2013
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