terça-feira, 6 de outubro de 2015

OS CÃES DA NOITE


I

Quando a noite se eriça mais do que é costume,
convoco os cães.

Na esperança de que os cães me tirem
das goelas da noite
e abram brechas na muralha de fogo.


A. M. Pires Cabral
in A noite em que a noite ardeu, Lisboa: Cotovia, 2015

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

PASTELARIA


Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


MÁRIO CESARINY




[ID, Guimarães, 2013]

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

SOL E SOMBRA


"[...]

Sem a recusa dos compromissos com todos os agravos inerentes é impossível arriscar a heresia no sentido de que fala Consolo. Em tempo de nivelação tão global num país onde a opinião pública é balbuciante tudo se agrava ainda mais. E embora pareça pouco poético falar por exemplo de meia dúzia de pinheiros com centenas de anos arrancados a uma praça vampirizada pelos automóveis, ou da libertação de um chimpanzé adolescente acorrentado no meio de destroços, o poema vai-se edificando também nesses martírios, essas rugosidades e manchas.

[...]
O poema, que também faz parte da horda errando nesta esfera que poucos soubemos resguardar, não pode isolar-se das suas dores e fealdades. É preferível narrar o nosso tempo letal nem que para isso se tenham de inventar outras palavras e uma poesia às vezes tão bruta como tudo aquilo a que vamos assistindo.

[...]"




Fátima Maldonado
in Cão Celeste n.º 7, com ilustração de Ana Menezes, 
Lisboa, Agosto de 2015

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Cão Celeste #7




Colaborações de:

Abel Neves - Alexandre Sarrazola - Ana Biscaia - Ana Menezes - Ana Teresa Pereira - António Barahona - Beatriz Hierro Lopes - Bruno Borges - Bruno Dias - Cláudia Dias - Daniela Fortuna - Daniela Gomes - Débora Figueiredo - Diniz Conefrey - 
Fátima Maldonado - Filipe Matos - Gil de Carvalho - Hugo Pinto Santos - Inês Dias - Inês Lourenço - Isabel Baraona - Isabel Nogueira - João Concha - John Mateer - Jorge Roque - José Ángel Cilleruelo - José Tolentino Mendonça - Julián Axat - 
Luís França - Luís Henriques - Luis Manuel Gaspar - Manuel de Freitas - 
Manuel Diogo - Maria João Worm - Marta Chaves - Martin Copertari - 
Mauricio Salles Vasconcelos - Pádua Fernandes - Paulo da Costa Domingos - 
Ricardo Álvaro - Ricardo Castro - Ricardo Marques - Rui Caeiro 
- Tiago Manuel - Vasco Silva

sábado, 1 de agosto de 2015

DIALOGO DEL PERRO Y DEL ANGEL


El perro le dijo al ángel: "yo te beso"
el ángel le dijo al perro: "yo te muerdo"
el perro le dijo al ángel: "yo te canto"
el ángel le dijo al perro: "yo te ladro"
el perro le dijo al ángel: "yo te alabo"
el ángel le dijo al perro: "yo te meo"
el perro le dijo al ángel: "yo te leo"
y el ángel: "cállate que me estropeo!"


Carlos Edmundo de Ory, Sin Permiso de Ser Ángel,
New York: Vanguardo Editions Gas Station, 1988

sexta-feira, 29 de maio de 2015

DA ORTOGRAFIA NOVA, DIZEM


Passo a passo o gandulo
Ainda bota acento no cú
Perante os espetadores
Que dizem ah para os lados de chelas
Ou fazem oh
Chegados a s. bento
O estilo
(cagança semiótica)
Vai além da gravata
Ou fralda de fora
Ser côxo é outro modo
De caminhar entre a arrogância
É tudo uma questão de bons-dias


Nunes da Rocha, Sabão Offenbach,
Lisboa: &etc, 2015

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Manuel de Freitas


Sabes tão bem como eu
que a Rua de Santa Maria
não tem fim. Ladeia o oceano,
demora-se junto de cães sentados
e oferece quando pode um cigarro
à primeira puta que afasta as cortinas.

Para trás fica o comércio,
indiferente ao sino cansado
da Sé e aos gins (se te lembras)
do Sunny Bar. Mas passámos já
a débil fronteira, depois do Mercado.
Pontas de charros no chão - um aviso.

Ou as mulheres que se encostam
às portas pequenas que nos chamam
para o último copo de Jacquê.
Como se fosse (digamos assim) a vida
e tivesse agora tanto espaço para morrer.


In Sunny Bar, sel. de Rui Pires Cabral, 
Lisboa: Alambique, 2015

sábado, 9 de maio de 2015

A ASSOMBRAÇÃO


Eu sou o cão que tu puseste a dormir,
como gostas de chamar à agulha do esquecimento,
e volto para te dizer esta coisa simples:
nunca gostei de ti - nem por um momento.

Quando lambia o teu rosto,
pensava em morder-te o nariz.
Quando via como te secavas com uma toalha,
apetecia-me saltar e castrar-te num instante.

Detestava a maneira como te movias,
a tua falta de graça animal,
a maneira como te sentavas numa cadeira para comer,
com um guardanapo no colo e a faca na mão.

Eu teria fugido,
mas era muito fraco, um truque que me ensinaste
quando ainda estava a aprender a sentar e a deitar,
e - o maior dos insultos - a apertar a mão sem ter uma.

Admito que a visão da trela
me entusiasmava
mas apenas por que significava que estava prestes
a cheirar coisas que nunca tinhas tocado.

Podes não querer acreditar nisso,
mas não tenho nenhuma razão para mentir.
Odiava o carro, os brinquedos de borracha,
detestava os teus amigos e, pior, os teus familiares.

O tilintar da minha chapa levava-me à loucura.
Sempre me fizeste festas no sítio errado.
Tudo o que sempre quis de ti
foi comida e água fresca nas minhas tigelas de metal.

Enquanto dormias, ficava a ver-te respirar
à medida que a lua ia subindo no céu.
Foi precisa toda a minha força
para não levantar a cabeça e uivar.

Agora estou livre da coleira,
da gabardina amarela, da camisola com monograma,
do absurdo do teu relvado,
e isso é tudo o que tu precisas de saber sobre este lugar

excepto o que já calcularas antes
e te deixa feliz porque não aconteceu mais cedo -
que todos aqui conseguem ler e escrever,
os cães em poesia, os gatos e os outros em prosa.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014

quinta-feira, 23 de abril de 2015

FIDELIDADE




Silvina Rodrigues Lopes, "O nada que se vive, que se escreve. Jorge de Sena",
Cão Celeste, n.º 1, Lisboa, Abril de 2012