quarta-feira, 17 de abril de 2013
sexta-feira, 12 de abril de 2013
sábado, 6 de abril de 2013
THE SKY'S GONE OUT
No future, just a little past.
Sim, até os punks podem ter saudades.
Regressavam ao esmo de uma
obscura cidade da Alemanha
e não encontravam o Gingão,
o Gráficos, o Esteves da taberna homónima.
Também não encontravam, claro,
o fulgor bêbedo dos quinze anos
(fenómeno bastante natural).
Raio de povo este, que nem ao futuro
consegue pôr os cornos,
injectado de pavor e de memórias.
Não,
não é feliz aquilo a que chamamos noite.
Os mais jovens (e mais estúpidos) substituem
distraidamente aqueles que a idade
tornaria ainda piores. "All we ever got
was cold" - não duvidem.
O Esteves, por exemplo, nunca
ouviu falar do parente literário
que talvez tivesse sido dono de uma tabacaria.
Preferia segurar a porta nos ombros
de betão armado e sacudir a cinza, desconfiando
sempre dos novos guerrilheiros urbanos.
Nenhuma navalha o matou; atropelado na aldeia,
acedeu em trespassar sabedoria e esquecimento.
Outro caso de que me lembro: o do Manel
do Estádio. Não sei, aliás, como enterrá-lo.
Morreu como ninguém morre,
faltou-me todo inteiro numa tarde de Novembro.
Chegou de um Norte qualquer, o meu Manel
somente, e trouxe menos fundura ao poço
da minha e de tantas outras vidas.
Só foi pena ter doído assim a última cerveja,
no maior desconhecimento de me estar a despedir.
Batemos a portas fechadas, sentimos nos ouvidos secos
a penumbra de um vinho impartilhável.
E é, afinal, tão simples: destronada a música,
ninguém ousará sequer convidar-nos para dançar.
Que nos murassem as certezas, estava bem.
As dúvidas, contudo, deixaram de ter onde nos ferir.
Olhos impávidos vêem o cão da noite recolher-se,
abrir por curiosidade as veias, saborear a derrota.
"All we ever wanted was everything" - mas
deram-nos sopa de nada, restos num prato vazio.
Manuel de Freitas, A Flor dos Terramotos,
Lisboa, Averno, 2005
[retirado daqui]
quarta-feira, 3 de abril de 2013
terça-feira, 2 de abril de 2013
António Barahona
XI
A humanidade não me importa muito, nem pouco, nem nada: o meu próximo, sim, importa-me tudo, na tentativa de nele amar o Todo. A humanidade é uma abstracção de políticos e filósofos ateus, nazis, comunistas, tecnocratas, etc., que pretendem transformar o mundo num campo de concentração global, povoado, na sua maioria, por uma espécie de canalha, dependente de máquinas (cada vez mais sofisticadas) e desligada do transcendente por incapacidade mental.
O meu próximo é concreto, como este texto que exprime, letra a letra, o espírito do que digo.
O Profeta Jesus (que a paz esteja com ele), o Sêlo da Santidade, quando multiplicou os peixes e os pães, mandou a multidão repartir-se em grupos; e, aos grupos, mandou que dividissem, entre si, a parte que lhes coubera para que, dentro de cada grupo, cada um partilhasse com o próximo.
- in As Grandes Ondas,
domingo, 31 de março de 2013
E a tua ferida, onde está?
Pergunto onde fica, em que lugar se oculta a ferida secreta para onde foge todo o homem à procura de refúgio se lhe tocam no orgulho, se lho ferem? Esta ferida - que fica assim transformada em foro íntimo - é que ele vai dilatar, vai preencher. Sabe encontrá-la, todo o homem, ao ponto de ele próprio ser a ferida, uma espécie de secreto e doloroso coração.
Se observarmos o homem ou a mulher que passam com olhar rápido e voraz - e também o cão, o pássaro, uma panela - a velocidade do olhar é que nos mostra, ela própria e com rigor máximo, que ambos são a ferida onde se escondem mal sentem o perigo. O quê? Já lá estão, já os conquistou - deu-lhes a sua forma - e para ela a solidão: lá estão inteiros no retesar de ombros em que passam a concentrar-se, com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca, e contra a qual nada podem nem querem, pois dela é que sabem esta solidão absoluta, incomunicável - este castelo da alma - para serem a própria solidão.
Jean Genet, O Funâmbulo,
trad. de Aníbal Fernandes,
trad. de Aníbal Fernandes,
sexta-feira, 29 de março de 2013
NOTA
A beleza da língua portuguesa provém das suas raízes (latina, grega e árabe), da dicção do povo e da invenção dos poetas, os três factores fundamentais que hoje, tal como hontem, pretensos reformadores assassinam e desfiguram.
Não se estranhe, portanto, neste livro, como, aliás, em todos os nossos livros, grafias diferentes da que, erradamente, se tornou quase comum.
Guia-nos o critério biológico e estético de Teixeira de Pascoaes e, nele inspirado, algumas palavras, principais ou nucleares, escrevêmo-las com recurso à etymologia genética e tendo sempre em conta a sua conduta musical.
A ortografia é uma arte subtil (variável conforme o contexto), que complementa as artes da caligrafia e da leitura.
António Barahona, As Grandes Ondas,
Lisboa: Averno, 2013
domingo, 24 de março de 2013
ALONE TOGETHER
à memória de Mário Alberto
Não sou saudosista, até porque sempre tive grandes dúvidas de que haja épocas dignas de serem vividas. Muito menos, acrescento, serei saudosista do que não vivi. E não conheci, infelizmente, o Mário Alberto. Gostava muito de me ter embebedado com ele, mas não calhou. Quando cheguei a Lisboa, já o Parque Mayer era uma ruína pouco aliciante, sem a corrosão ou a magia de outros tempos. Havia, é certo, algumas tabernas. Mas a própria Baixa foi definhando; as livrarias transformaram-se em bordéis, os cafés foram-se tornando irrespiráveis, incompatíveis, quase todos, com a minha obscena vontade de fumar. Resta o Estádio, na sua triste e azul teimosia. Nunca morri de amores pela Trindade, e a estátua pouco equestre do Pessoa matou-me de vez a Brasileira.
Não houve, repito, tempos melhores. Mas seria outra coisa, fatalmente preferível, encontrar num desses cafés o Manuel de Castro, o António José Forte, o Mário Cesariny, o Ernesto Sampaio - ou o Mário Alberto, claro. Hoje temos a pouca sorte de assistir à "criação ao vivo", como se a literatura fosse uma matança do porco, em directo. Temos, enfim, poetas muito mediáticos, gente deveras talentosa e os cagalhões ampliados da Joana Vasconcelos. Uma colorida tristeza, se virmos bem.
[..]
Manuel de Freitas, Cólofon,
Lisboa: Fahrenheit 451, 2012
CASIDA VII - DE LA ROSA
La rosa,
no buscaba la aurora:
casi eterna en su ramo,
buscaba otra cosa.
La rosa,
no buscaba ni ciencia ni sombra:
confín de carne y sueño,
buscaba otra cosa.
La rosa,
no buscaba la rosa:
inmóvil por el cielo
buscaba otra cosa.
Federico García Lorca
(na voz, claro, de Chavela Vargas)
[Ilustração de Luís Henriques
in Cão Celeste n.º2, Lisboa: Outubro de 2012]
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