domingo, 16 de novembro de 2014

'Aquilo que nos deixa adormecer a cada noite'


[...]

4. Sim, o texto começa na Achadinha, São Miguel, Açores, e é sobre animais; “cães, gatos, cavalos, burros, passarinhos de toda a espécie, tartarugas, grilos, caracóis, lesmas, borboletas, bichinhos de conta”; “a espantosa grandeza” “com que passeiam sobre o inferno”; gostar tanto deles que “talvez isso seja aquilo que ainda [nos] deixa adormecer em cada noite”. Diz a Renata: “Aos animais devemos essa luz solitária, quase música, quase silêncio, a que chamamos deus. Não o deus da Bíblia, que não sei onde repousa, mas aquele que cuida da alvorada. Porque eles o conhecem, porque com ele privam quando a primeira luz desponta.” Este texto saiu em Maio, no número cinco de uma revista chamada Cão Celeste.

[...]



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Louis-Ferdinand Céline

[...]
A andar sempre para a frente recordava-me da cerimónia da véspera. Fora num prado que se realizara aquela cerimónia, por detrás de uma colina, e com a sua voz grossa o coronel arengara à frente do regimento. «Corações ao alto! - tinha ele dito... - Corações ao alto! e viva a França!» Quando não se tem imaginação, morrer é coisa de nada, quando se tem, morrer é coisa séria. Eis a minha opinião. Nunca tinha compreendido tanto de uma só vez.
Mas o coronel, esse, nunca tivera imaginação. Todas as desgraças daquele homem provinham daí, aquela sobretudo. Seria eu então o único a ter a imaginação da morte no nosso regimento? [...]


in Viagem ao fim da noite
2.ª ed., trad. Aníbal Fernandes,
Lisboa: Ulisseia, 1983


*


[...]
No jogo do homem, o instinto da morte, o instinto silencioso, ocupa decididamente um lugar importante, talvez a par do egoísmo. Ocupa o lugar do zero na roleta. O casino ganha sempre. A morte também. A lei dos grandes números trabalha a seu favor. É uma lei sem falhas. Tudo o que fazemos, de uma maneira ou de outra, acaba rapidamente por esbarrar com ela e por se transformar em ódio, em sinistro, em ridículo. Era preciso sermos dotados de um modo muito particular para falarmos de outra coisa para além da morte nestes tempos em que sobre a terra, sobre as águas, no ar, no presente, no futuro, nada mais existe. Sei que se pode ainda dansar no cemitério e falar de amor nos matadouros, o autor cómico mantém as suas hipóteses, mas é apenas um tapa-buracos.
[...]


in "Hommage à Zola", 1933
[Trad. Inês Dias]

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

SINGULARIDADE

Não sou mais puro só porque versejo
e Deus me quis contrariado.
O que me cerca, quase desejo,
afirma-se no tempo e na verdade.

O que me cerca tem um nome vão.
Uns dizem mundo, outros futuro.
Mundo futuro é binómio-cão.
Mordendo, ladra, os ossos me une.

O que me cerca suspende a razão
em ambos os pratos da balança.
Fica pairando, tremendo no ar
ave da esperança e da distância.

Sim! - ninguém ouse violentar-me.
Sou o que fui, serei - talvez milagre!


RUY CINATTI



domingo, 12 de outubro de 2014

SÉTIMO DIA

Domingo, os lódãos
ficam mais sérios
no retrato

do jardim. Descansam
as criaturas, descansa quem
as criou, algures longe

da vista, longe do coração.
Descansa o cão extraviado
à sombra do contentor

e o ministro das finanças -
sempre, sempre tão
cansado - no seu reduto

murcho. Domingo, linha branca
que atravessa um olival:
já deste o ramo

ao padrinho? Vagares
de um mundo pequeno
ao domingo, no palheiro,

em histórias de papel velho
cor de açúcar mascavado -
eu bem não queria

morrer. Domingo nos montes
em volta, domingo na ilha
de Kirrin,

domingo em toda a parte,
de nenhures, de Deus
nenhum.


Rui Pires Cabral
in "Génesis", Suroeste — Revista de literaturas ibéricas, n.º 4, 
Badajoz, 2014

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A. M. Pires Cabral


5.


Não estou só
Recrutei companheiros para o Inverno
que não o temem como se teme um lobo,
mas apenas como é justo que se tema
o desdobrar das páginas do tempo:
com decoro. Então
aconchegados a mim, e eu a eles.
Somos uma parede.

Mas há quem esteja só
e assim deva ficar.

A esses, tudo aquilo que o nocivo
Inverno lhes trouxer
recordará o que ficou retido
nas levianas demasias do Verão.

As cartas que usarão como recurso
contra a ausência do Sol
ninguém lhas lerá, ser-lhe-ão devolvidas
com um carimbo maquinal: «Desconhecido
neste endereço». Cartas descompostas
de terem ido e voltado.
Cartas que em boa verdade
escreverão a si mesmos
sob outros nomes e moradas. Cartas
semelhantes a ardilosos bumerangues
ou a cães ensinados a voltar para nós,
trazendo na boca, molhado de saliva,
o pau que arremessámos.


Lisboa: Averno, Novembro de 2004

domingo, 21 de setembro de 2014

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA DIÓGENES 2013




O Prémio Nacional de Poesia Diógenes, atribuído pela revista Cão Celeste e com o valor pecuniário de €1500, distinguiu, de entre os livros publicados em 2013, Uma Viagem no Outono, de Rui Nunes (Lisboa, Relógio D’Água). 
     O júri quis homenagear a eficácia com que a forma híbrida trabalhada por Rui Nunes neste livro traduz, esteticamente, o mal-estar civilizacional em que vivemos. Esse mal-estar é mostrado na sua complexidade social, cultural e política, mas sempre através de modulações subjectivas que lhe conferem a autenticidade e o dramatismo com que é vivido singularmente por cada um daqueles que por ele são atingidos.
     A decisão do júri – constituído por Diogo Dória, Emanuel Jorge Botelho e Rosa Maria Martelo – foi tomada por unanimidade.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

OS CÃES

Os rapazes não serviam para nada. Nos dias em que não chovia iam para o penedo da curva do rio imitar o vento. Se fazia calor empanturravam-se de amoras e corriam para a charca onde se deixavam ficar até o sol desaparecer por detrás dos silvados mais altos. Nos dias de muito frio aninhavam-se abraçados um ao outro e iam cuspindo para o lume se calhava alguém falar no diabo. De Verão e de Inverno nus da cintura para baixo. Sempre nus. Não tinham préstimo, os rapazes, quando os foram buscar à várzea e os puxaram de dentro das ramadas bravas de um vinhedo, rente à levada, e os acartaram num carro de bois pela serra acima para os devolver aos pais. Na terra toda a gente dizia que os pais dos rapazes eram irmãos. Não importava, desde que se mantivessem arredados naquela granja da meia encosta, quase na cumeada, sem luz nem água; cheia de esterco à volta – das cabras, dos cães e dos rapazes.

Os pais dos rapazes viviam de levar as cabras para a serra e de carregar mato para uma ou outra casa grande. No povo ninguém lhes dava trabalho. Não os chamavam para jorna nenhuma nem se esqueciam do dia em que a mulher pariu os dois moços, havia mais de vinte Invernos, naquela granja batida a chuva, com a ajuda da velha, a sua mãe, enquanto os dois homens saíam para o temporal, o novo com o cajado a roçar nas urzes e a gritar com as bestas serra acima, o velho com uma corda do mato a tiracolo a descer na direcção do carvalhal. O velho foi pendurar-se num galho e ficou para ali até o povo dar com ele. O vento a uivar-lhe na boca escancarada como acontecia aos esfaimados que se enforcavam por falta de sustento. Contava-se que não tinha querido ver os moços por serem filhos de quem eram. Era o que se dizia, porque aos da granja mal se lhes ouvia a voz. A velha e o casal eram de parcas palavras e os rapazes nunca tinham aprendido a falar. Percebiam o que se lhes dizia, entendiam-se com os cães, os pássaros e os outros bichos. Mas não falavam.

[...]


Alexandre Sarrazola, Neófitos
Lisboa: Averno, 2014




[Fotograma: Andrei Tarkovsky, 'O Espelho', 1975]

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

domingo, 3 de agosto de 2014

PENÉLOPE


Encontrava-a aos domingos
com a teia de crochet, perto
do estádio. Ulisses regressava
a Ítaca, no fim de mais um
jornada de águias, dragões
e outros monstros. Argos
no banco de trás, abanava a cauda
para não morrer de velho.


- INÊS LOURENÇO