sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

GUERRA & PAZ


Pedidos sacrifícios, as imagens
Foram trazidas na maré, enxutas.
Treme a escada torpe, e o cão ladra -
São os antepassados, fixos,
Na água das janelas.
Que podemos fazer, o fumo
Entra nas casas é preciso
Uma porta que nos leve ao mar.
 

 
 Gil de Carvalho, De Fevereiro a Fevereiro,
Lisboa: Centelha, 1987

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

[...]

Negro brilhando arrastava consigo o nosso olhar,     por necessidade física de o vermos ser cão; nunca um cão a fazer o seu trabalho fora um tão minucioso movimento em espirais e volutas; fazia redemoinhar o centro do lugar onde estávamos arrastando consigo instrumentos de música e nascimentos; era uma forma correspondente ao branco potencial dos cordeiros que o tratavam respeitosamente por vós; nas águas frequentemente tão estagnadas do afecto, eles faziam variar as rotações mil vezes por unidade de salto.

Era um rebanho, Aramis?, era um agregado de estrelas luminosas vistas pelo lado baço da lã?, era a nossa constelação reanimando-se e, num esforço dos seus músculos, pousando, confidencialmente, a sua configuração na serra de Ossa?



Maria Gabriela Llansol, O raio sobre o lápis,
com desenhos de Julião Sarmento,
Lisboa: Europália, 1991

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013



Fotografia de Lola Alvarez Bravo, "Frida Kahlo e os seus cães Xoloitzcuintli", 1944. 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

CERIMÓNIA FUNESTA


O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos,
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estreme ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.


Fátima Maldonado
in Telhados de Vidro n.º1
Lisboa: Averno, Novembro de 2003

sábado, 2 de fevereiro de 2013

SETEMBRO


"Seldom we find" says Solomon Don Dunce
"Half an idea in the profoundest sonnet"

Edgar Allan Poe



A fisionomia, o carinho das coisas impalpáveis,
o balbuciar, todo em amarelo, dos limões...
Cintura na pedra, correio subtil de Lesbos para Marte.

Antinous visitou-me. Deixou a casa desarrumada 
e um projecto em mim demasiadamente longo.
No frágil da memória eu durmo e sou eu,
deuses de papelão sentando-se a meu lado. 

No leito fluvial por onde dorme o cisne
chamam por mim os outros príncipes. Todos
irmãos.

Escuridão nova na velha escuridão,
efeito de luz nas janelas do poema...
O meu cão dorme. He is a poet, isn't he?



Mário Botas
in Canto de Mar - uma antologia de poesia sobre a Nazaré,
org. de Alexandre Isaac e Mário Galego,
Nazaré: Biblioteca da Nazaré, 2005