quinta-feira, 25 de outubro de 2012

CINCO VOOS LÁ NO ALTO

Ainda é escuro.
O pássaro desconhecido pousa no seu ramo habitual.
O cãozinho da porta ao lado ladra surante o sono
interrogadoramente, apenas uma vez.
Talvez no seu sono, também, o pássaro se interrogue
uma ou duas vezes, inseguro.
Perguntas - se é isso que são -
respondidas directamente, simplesmente,
pelo próprio dia.

Manhã enorme, laboriosa, meticulosa;
uma luz cinzenta iluminando cada ramo despido,
cada rebento isolado, de um dos lados,
fazendo uma outra árvore de veios vítreos...
O pássaro ainda está lá. Parece bocejar.

O cãozinho preto corre no seu pátio.
A voz do dono eleva-se, ríspida:
"Devias ter vergonha!"
Que fez ele?
Pula de alegria;
Lança-se em círculos no meio das folhas caídas.

É óbvio que não tem vergonha nenhuma.
Ele e o pássaro sabem que tudo tem resposta,
tudo está programado,
sem necessidade de fazer uma nova pergunta.
- Ontem trazido para hoje tão facilmente!
(Um ontem que julgo quase impossível de se emergir.)


Elisabeth Bishop
[Trad. Maria de Lourdes Guimarães]
 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

DEBAIXO DO VULCÃO


alguém atirou um cão
morto às profundidades
Malcolm Lowry

I

Malcolm
Lowry: vivo
mal como Lowry,
bebo
bem como Mal-
colm, como
mal como
Malcolm
come:
álcool
Malcolm, al
coolm,
ó
alcolmalcolm,



II

ó frídida
tequila
no sopé do vulcão
por onde
o vulnerável cão
do espírito
ladra
e lavra
a essência
recôndita
do álcool:
conte-a
a bebidíssima
exigência


III

do meu
último copo,
sempre o último,
cante-a
o ex-extinto
vulcão
e por instinto
o vulnerável
cão,
ou plante-a
o próprio Lowry,
frágil,
entre lava
e neve:


IV

tépido mescal
para inventar
a mescaligrafia
gémea do som
ou da sombria
pauta musical
onde as notas florescem
em breves,
compactas corolas,
e hastes
que sobem, descem
esguiamente
os degraus
dum jardim,


V

enquanto
os índios passam
depressa
mas de pedra,
ficam
antepondo-se
ao norte
que fabrica
os países
com vidro,
com vinho, com visões
de videiras vitais
debaixo
do vulcão,


VI

ó tépida tequilla,
existe ainda
o amor
e o vulnerável cão
do espírito
que lavra
cada palavra
oculta
por pudor
e a ladra
inultilmente
dentro
da garganta
vazia,


VII

frígido mescal
como um galope
na floresta
de vinho e vidro,
filtro
litro a litro,
animal,
animais,
e mais e só
o dorido espírito
do álcool,
Malcolm,
entre neve
e lava:


VIII

os índios passam,
bebo, ficam
na sombria
pauta musical,
e o vulnerável cão
do amor
sossega pelo menos
um instante,
enquanto
os índios
sobem, descem
esguiamente
os degraus
das pirâmides.


Carlos de Oliveira in ‘Micropaisagem’,
Publicações Dom Quixote, Lx, 1968
 
[Via 50KG]

domingo, 21 de outubro de 2012

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA DIÓGENES - 2011



A cerimónia informal de atribuição do Prémio, 
seguida de uma leitura de poemas de António Barahona por Diogo Dória, 
terá lugar no próximo sábado, dia 27 de Outubro, às 18h, 
na livraria Paralelo W

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

domingo, 14 de outubro de 2012

Hoje,
deixarei que sopre
um bravo vento
no coração. À janela

das coisas silenciosas,
os cães
hão-de ladrar-me

entre infância e morte
a poesia.
 

  José Carlos Soares, Do Lado de Fora,
Porto: 50 KG, 2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O Cão Celeste # 2
está quase a entrar na gráfica.
 
 
 
 
[John Lennon]