quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

TODOS OS CÃES

Todos os cães mudos de luz à passagem do cortejo
o sorriso do homem do trombone de varas
pendurado no rebate dos sinos
cai uma chuva miudinha a amortalhar o som dos metais
a tenda das comédias ensopa debo-
tada de uma alegria de domingo
vêm as crianças pedir as janeiras à nossa porta
cantam na sua inocência de quem não
sabe da lama nos nossos pés
e afagam-nos com cantigas de cristal para
nos limpar da tristeza pressentida
enfim a tarde vai chegando muito cedo e olha-
mos as janelas iluminadas das casas
que são dos outros,
como quem passeia um cão na noite da consoada.


Alexandre Sarrazola
in Merry Christmas, Lisboa: Averno,  2006

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012






ESTE LIVRO ESCURO
- sobre um álbum de Moriyama Daido


Este livro escuro do tamanho de uma caixa de cinzas
é um memorial após outro, página após página
de instantâneos, como se pudéssemos ser cinemáticos,
como se a visão nunca fosse uma rasura, esse negro metafísico.

Se fôssemos ídolos na Hollywood que imaginamos, carne tonificada,
prata escorregadia ou, melhor, tremeluzindo com os aplausos dourados
dos dias a passarem, página após página,
nunca teríamos duvidado do fotográfico,

nunca teríamos desejado o abandono de um poema.


John Mateer, Este Livro Escuro
Lisboa:  Averno, 2012

sábado, 8 de dezembro de 2012

Deportado pelo novo regime
ortográfico, nesta vergonha
de ser-se um involuntário
num caminho que nem

a Roma conduzirá, nem
proveito algum ou sabedoria
se lhe extrairá no fim. Sim,
expulso do coração da fala.



Paulo da Costa Domingos, Averbamento,
Lisboa: &etc, 2011

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

OS CÃES ROMÂNTICOS

Eu tinha vinte anos então
e estava louco.
Tinha perdido um país
mas ganhara um sonho.
E se tinha esse sonho
o resto não importava.
Nem trabalhar nem rezar
nem estudar de madrugada
com os cães românticos ao pé.
E o sonho vivia no vazio do meu espírito.
Uma casa de madeira,
a meia luz,
num dos pulmões do trópico.
E às vezes virava-me dentro de mim
e visitava o sonho, estátua eternizada
em pensamentos líquidos,
uma bicha branca retorcendo-se
no amor.
Um amor desbocado.
Um sonho dentro de outro sonho.
E o pesadelo dizia-me: crescerás.
Deixarás para trás as imagens da dor e do labirinto
e esquecerás.
Mas nesse tempo crescer seria um crime.
Estou aqui, disse, com os cães românticos
e aqui me vou ficar.


Roberto Bolaño
 

sábado, 1 de dezembro de 2012

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

DIÁRIO DE RUM

Enquanto espero a subida das águas
Vou construindo de cabeça
O poema deste dia

Prédios para deitar abaixo
Escalpes de negócios clandestinos
Cães que hesitam a travessia
 
Os bárbaros chegaram ao governo
Falam línguas.
 
João Almeida
in Telhados de Vidro n.º 17,
Lisboa: Averno, Novembro de 2012

domingo, 25 de novembro de 2012


António Barahona - David Teles Pereira - Diogo Vaz Pinto - Emanuel Jorge Botelho - Inês Dias - John Mateer - Jorge Roque - Manuel de Freitas - Paulo da Costa Domingos - Silvina Rodrigues Lopes


*


André Lemos - Cláudia Dias - Daniela Gomes - Diniz Conefrey - Fernando Augusto - Isabel Baraona - Luís Henriques - Luis Manuel Gaspar - Manuel Diogo - Maria João Worm - Ricardo Castro




domingo, 18 de novembro de 2012

CÍRCULO

Temos de confiar nas pessoas, afirmava o meu pai, perante as objecções da minha mãe que eram muitas e fundamentadas, e eu criança pouco entendia, embora me sentisse inclinado a defender o meu pai contra as armas e razões da minha mãe, talvez porque na sua eloquência a minha mãe ganhasse clara vantagem e eu nutrisse simpatia pelos derrotados, ou simplesmente porque o gene se tivesse cumprido e eu na minha crença insensata repetisse o meu pai.
Quanto mais sofro por viver de coração aberto, é o que desta memória hoje se ilumina, mais me reconheço nas palavras do meu pai. Quanto mais envelheço, mais me aproximo do lugar que deixou vazio.
JORGE ROQUE
 
 
Raymond Cauchetier, 
'Lunch off-set with Jean-Paul Belmondo and dog (Peau De Banane)',
1963

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

LANÇAMENTO


O lançamento do #2 
será dia 10 de Novembro (sábado),
às 18h, no Paralelo W.



[Luis Manuel Gaspar]

terça-feira, 6 de novembro de 2012

DESENCANTAMENTO

No meu beco, há muitos pombos. Coloquei um recipiente com água, ao lado da porta, para eles beberem e se refrescarem. E atiro-lhes milho e pedacinhos de pão.
Isto, porque me lembro de que no meio de tantos pombos, pode muito bem estar aquele que Jesus esculpiu em barro e a que deu vida, com o seu sôpro.
 

*
 
 
Mas..., Já não há espaço para voar: disseram-me que é proibido alimentar os pombos.
E também é proibido tocar música na rua e aceitar moedas dos passeantes: os meus dois filhos mais pequenos (9 e 12 anos, alunos respectivamente dos Conservatórios de Música e Dansa) foram presos por dois polícias, como se fossem vis bandidos.
Já não há arte na vida, nem espaço para brincar e voar: NÃO É PROIBIDO MALTRATAR CRIANÇAS E DEVE-SE MATAR À FOME OS POMBOS DA CIDADE.



29.VIII.012
 
 
António Barahona
in Cão Celeste n.º 2, Lisboa, Outubro de 2012

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

CÃO
LIRICA
ÇÃO


Parte da lírica
afago-a com as unhas
camadas submissas
focinho do poema.

Os óculos perseguem as pálidas palavras.

Mesmo as mãos
farejam o discurso
enquanto firo um toiro
num alfabeto loiro
num velho mecanismo.

(Um lápis diz para mim:
enxota a solidão)

Parte da lírica
agora é como um cão.

- Armando Silva Carvalho, Lírica Consumível, 1965
 
[Obrigada, Joana] 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

CINCO VOOS LÁ NO ALTO

Ainda é escuro.
O pássaro desconhecido pousa no seu ramo habitual.
O cãozinho da porta ao lado ladra surante o sono
interrogadoramente, apenas uma vez.
Talvez no seu sono, também, o pássaro se interrogue
uma ou duas vezes, inseguro.
Perguntas - se é isso que são -
respondidas directamente, simplesmente,
pelo próprio dia.

Manhã enorme, laboriosa, meticulosa;
uma luz cinzenta iluminando cada ramo despido,
cada rebento isolado, de um dos lados,
fazendo uma outra árvore de veios vítreos...
O pássaro ainda está lá. Parece bocejar.

O cãozinho preto corre no seu pátio.
A voz do dono eleva-se, ríspida:
"Devias ter vergonha!"
Que fez ele?
Pula de alegria;
Lança-se em círculos no meio das folhas caídas.

É óbvio que não tem vergonha nenhuma.
Ele e o pássaro sabem que tudo tem resposta,
tudo está programado,
sem necessidade de fazer uma nova pergunta.
- Ontem trazido para hoje tão facilmente!
(Um ontem que julgo quase impossível de se emergir.)


Elisabeth Bishop
[Trad. Maria de Lourdes Guimarães]
 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

DEBAIXO DO VULCÃO


alguém atirou um cão
morto às profundidades
Malcolm Lowry

I

Malcolm
Lowry: vivo
mal como Lowry,
bebo
bem como Mal-
colm, como
mal como
Malcolm
come:
álcool
Malcolm, al
coolm,
ó
alcolmalcolm,



II

ó frídida
tequila
no sopé do vulcão
por onde
o vulnerável cão
do espírito
ladra
e lavra
a essência
recôndita
do álcool:
conte-a
a bebidíssima
exigência


III

do meu
último copo,
sempre o último,
cante-a
o ex-extinto
vulcão
e por instinto
o vulnerável
cão,
ou plante-a
o próprio Lowry,
frágil,
entre lava
e neve:


IV

tépido mescal
para inventar
a mescaligrafia
gémea do som
ou da sombria
pauta musical
onde as notas florescem
em breves,
compactas corolas,
e hastes
que sobem, descem
esguiamente
os degraus
dum jardim,


V

enquanto
os índios passam
depressa
mas de pedra,
ficam
antepondo-se
ao norte
que fabrica
os países
com vidro,
com vinho, com visões
de videiras vitais
debaixo
do vulcão,


VI

ó tépida tequilla,
existe ainda
o amor
e o vulnerável cão
do espírito
que lavra
cada palavra
oculta
por pudor
e a ladra
inultilmente
dentro
da garganta
vazia,


VII

frígido mescal
como um galope
na floresta
de vinho e vidro,
filtro
litro a litro,
animal,
animais,
e mais e só
o dorido espírito
do álcool,
Malcolm,
entre neve
e lava:


VIII

os índios passam,
bebo, ficam
na sombria
pauta musical,
e o vulnerável cão
do amor
sossega pelo menos
um instante,
enquanto
os índios
sobem, descem
esguiamente
os degraus
das pirâmides.


Carlos de Oliveira in ‘Micropaisagem’,
Publicações Dom Quixote, Lx, 1968
 
[Via 50KG]

domingo, 21 de outubro de 2012

PRÉMIO NACIONAL DE POESIA DIÓGENES - 2011



A cerimónia informal de atribuição do Prémio, 
seguida de uma leitura de poemas de António Barahona por Diogo Dória, 
terá lugar no próximo sábado, dia 27 de Outubro, às 18h, 
na livraria Paralelo W

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

domingo, 14 de outubro de 2012

Hoje,
deixarei que sopre
um bravo vento
no coração. À janela

das coisas silenciosas,
os cães
hão-de ladrar-me

entre infância e morte
a poesia.
 

  José Carlos Soares, Do Lado de Fora,
Porto: 50 KG, 2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O Cão Celeste # 2
está quase a entrar na gráfica.
 
 
 
 
[John Lennon]
 

terça-feira, 25 de setembro de 2012


Houve um período, entre meados do século XVIII e fins do século XIX, em que os escritores tinham o poder de influenciar as leis ou os costumes. Poetas, philosophes, romancistas, dramaturgos eram escutados e discutidos, as suas obras geravam interesse, podiam chocar ou deliciar a nascente Opinião Pública. Um artigo de jornal podia abrasar parlamentos, um livro podia ser censurado e apreendido, um autor podia ser adulado ou chantageado, condenado a comendas ou calabouços. Porque se lhe reconhecia poder de influência, a literatura era levada a sério (ou seja, temida) pelas autoridades políticas, económicas, militares, eclesiásticas.

Depois surgiram os meios de comunicação de massa, democratizou-se a arte, liberalizaram-se os costumes, o autoritarismo e o moralismo caíram de moda na imprensa burguesa, a consciência livrou-se dos velhos constrangimentos das eras metafísicas ou religiosas, e a espécie humana entrou num processo de juvenilização. A seguir à Primeira Guerra Mundial, bengalas e chapéus perderam estatuto, subiram os salários e as bainhas das saias, o povo das igrejas passou às danceterias e aos grandes armazéns, o chicote foi substituído pelo volante.

Aos poucos, um escritor que aspirasse a ser perseguido por delito de opinião não tinha outro remédio senão mudar-se para um regime ditatorial. É certo que nas democracias parlamentares um livro podia ainda ser banido por ofensa às instituições ou à moral burguesas, mas essa criminalização já não passava dum reflexo atávico e dum anacronismo; um anacronismo político, ao atribuir ao literato uma influência que ele já deixara de ter, mas também económico, ao não perceber o potencial escravizador da chamada “libertação sexual”, que a singela geração dos baby-boomers julgava intrinsecamente revolucionária. O tempo de Zola, e de D. H. Lawrence, havia passado irremediavelmente. E, com a possibilidade de controlo do espaço comunicacional pelos equalizadores publicitários e propagandísticos, dos intelectuais já nada havia a temer; pela primeira vez na história, um escritor tinha toda a liberdade para dizer o que quisesse, porque se havia tornado invisível, isto é, irrelevante.

O primeiro género literário a desaparecer do radar cultural foi a poesia, ainda no século XIX, quando os poetas viraram costas às expectativas burguesas para seguirem uma via de especialização que os deixaria a falar apenas uns com os outros, à maneira dos físicos ou dos matemáticos; com isso, inevitavelmente, a poesia ganhou em intensidade expressiva o que perdeu em leitores. Quanto ao romance e ao teatro, puderam conservar por mais algumas décadas, se não a influência, pelo menos um certo prestígio. E um indício desse remanescente de prestígio da cultura letrada e humanista em geral era que, ao contrário do que hoje sucede, nenhum membro do escol confessaria de bom grado a sua ignorância dos Grandes Vultos da Literatura, clássicos ou modernos. Podia não os ler, mas, a menos que quisesse passar por bárbaro ou industrial norte-americano, sentia-se obrigado a fingir que sim.

Algo de semelhante ocorreu no palco da atenção popular, embora aí a literatura séria nunca tenha chegado verdadeiramente a assentar o pé; mas onde esteve mais perto de o conseguir (em certos círculos de ilustração proletária), foi apenas para se ver sucessivamente ultrapassada pelo cinema, a rádio e a televisão, num movimento geral da actividade leitora para a inércia espectadora, da literacia para o consumo de imagens, do maior para o menor esforço. Perdida a tribuna da atenção letrada, que durante duzentos anos ocupou quase sem competidores, e fracassada a emancipação do povo através da alfabetização, idealizada pelo Iluminismo, o intelectual ficou sem objecto para as suas comunicações depressivas ou exigentes.

Em seu lugar surgiram mestres da oralidade que, ao contrário dos seus homólogos antigos, como Sócrates ou Cristo, não pretendem exortar o seu auditório a qualquer esforço de auto-superação intelectual ou espiritual. Solidamente implantados nos púlpitos duma comunicação social cartelizada, e auxiliados por técnicas de excitação emocional descobertas pela psicologia de massas, estes novos comunicadores tiram partido da natureza acomodatícia da mente humana para degradarem qualquer impulso de individualidade num narcisismo consumista e numa passividade apolítica que servem perfeitamente os interesses do poder. Deste modo, o ruído impera incontestavelmente sobre a palavra nos sistemas de comunicação dominantes, e a sedução sobre a persuasão, a propaganda sobre a informação.

Que a mistificação se tornou absolutamente instrumental para os detentores do poder, é algo que se pode aquilatar pelo progresso do eufemismo nos meios de comunicação social. Assim, e a título de exemplo, não é por acaso que hoje se pretende chamar “colaborador” ao trabalhador, que ao corte de salários e à apropriação privada de bens públicos se chama “reforma estrutural”, que à resistência anti-colonialista se chama “terrorismo” e ao terrorismo de Estado “libertação”, que se chama “democracia” à oligarquia e “lobbying” ao tráfico de influências. Escusado é notar que este esvaziamento semântico de palavras ou conceitos, tidos como “problemáticos” para a rede de poder global, tem como propósito introduzir ruído no espaço comunicacional, para que os homens, privados dum vocabulário comum, deixem de poder comunicar entre si. Uma estratégia, diga-se, com provas dadas desde o Antigo Testamento, tal como nos conta a história da torre de Babel.

Ora, que futuro pode ter a forma de indagação e de expressão a que chamamos literatura num espaço comunicacional tomado por exércitos de entertainers empenhados em difundir a surdez, a poluição lexical e a desinteligência? Que a literatura teria um papel central em tão necessária despoluição da língua, parece ser inquestionável. Mas é mais do que evidente que a presente invisibilidade do escritor torna este desígnio tão irrealista como o de purificar um Atlântico de fezes com dois cálices de cloro. Neste contexto, é inevitável perguntar: estará a literatura séria condenada à extinção por falta de leitores, perdida na torrente de trivialidade que inunda e monopoliza o espaço da atenção pública?

[...]

Sejamos realistas: se o processo de infantilização e embrutecimento do homem que alimenta o dinamismo capitalista prosseguir ao ritmo dos últimos decénios, dificilmente se imagina um jovem de 2070 a ler Séneca ou Montaigne, Tolstoi ou Joyce, T. S. Eliot ou Jorge de Sena. Por outras palavras, se nada for feito para conter a massificação do indivíduo e a sua violação moral e intelectual por hordas de comunicadores bárbaros, o mais provável é que a literatura siga o rumo de extinção a que parecem já hoje condenadas a liberdade política, a água potável, a vida marinha ou a fauna selvagem, e que as catacumbas que acolhem ainda os refugiados da literatura se convertam em túmulos selados.

A única circunstância que tornaria talvez possível o ressurgimento da cultura letrada e humanista seria uma catástrofe energética que nos fizesse voltar às velocidades romanescas do século XIX. Será essa a condição e o preço da sobrevivência da literatura, uma catástrofezinha de proporções bíblicas ou homéricas? Visto de 2012, dir-se-ia que sim. Se for esse o caso, porém, podemos estar optimistas, já que o apocalipse ecológico/económico parece irrevogável, convocado pelas trombetas duma ideologia assente na estúpida ilusão de “crescimento” infinito num planeta de recursos limitados.

Sendo estas as perspectivas, o futuro das letras, tal como o da espécie humana, só poderá ser pós-apocalíptico. Significa isto que um escritor dos nossos dias só pode apostar nos incertos leitores do século XXII. Até lá, a existência da literatura está simplesmente condenada a uma longa agonia.


José Miguel Silva, 
"Divulgações sobre o futuro da  literatura numa era de ignorância programada e pré-apocalíptica" 

TRATADOS COMO CÃES
(UM TÍTULO DE JORNAL)


A um Poeta de dezassete anos



Cumpre-nos fazer imensa coisa.
Cumpre-nos odiar a natureza.
Cumpre-nos adiar a natureza.
Cumpre-nos matar para não morrer, e vice-versa.
Cumpre-nos saber escolher meticulosamente os termos: senhor, dinheiro, fuso horário, compromisso, falcatrua, mostruário de vermes, atenção ao trânsito, postos, subalternos, garrafa queimada, omissão das ciências naturais.
Cumpre-nos estudar o mundo do avesso.
[…]
Cumpre-nos não ser tratados como cães.


Raul de Carvalho, Quadrangular, 1976

quinta-feira, 30 de agosto de 2012



Larry Towell, "A dog is seen through the photographer's eyeglasses", El Salvador, 1991

quinta-feira, 19 de julho de 2012

ARTIGO NÃO REVOGADO



Os poetas, à semelhança dos cães celestes,
serão sempre identificados pelos dentes.

Ricardo Álvaro

segunda-feira, 16 de julho de 2012

CÃO ATÓMICO


1.

Este cão tem folhas nas orelhas,
Com quatro talos:
Mas o que este cão devia ter era calos,
E só tem olhos e osso
E morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
Quase o diria meu irmão:
Parece gente!


2.

Este cão é redondo. Está deitado,
Rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
Mas perdeu a alcateia
Como os homens perderam a Razão,
Que hoje serve de osso ao cão
Escapo ao cogumelo nuclear,
E por essa razão se foi deitar.


27 de Maio de 1971



Vitorino Nemésio, "Cão Nuclear, Etc. e Bio-Poemas"
in Obras Completas Vol.II – Poesia, Lisboa: INCM, 1989


domingo, 15 de julho de 2012

Prémio Nacional de Poesia Diógenes



O prazo foi prolongado até dia 31 de Julho de 2012.



Cláudia Dias - Daniela Gomes - Diniz Conefrey - Isabel Baraona - José Feitor - Luís Henriques - Manuel Diogo - Maria João Worm

*

Manuel de Freitas - António Barahona - Paulo da Costa Domingos - Rosa Maria Martelo - Luís Miguel Queirós - Vasco Graça Moura - Silvina Rodrigues Lopes - João Barrento - António Guerreiro - Jorge Roque - José Miguel Silva - Mariana Pinto dos Santos - David Teles Pereira - Inês Dias - Diogo Vaz Pinto

terça-feira, 10 de julho de 2012

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Novas criaturas surgem da terra, com as narinas mordiscando o ar,
os esquilos abundam e repetem-se como perguntas,
os vermes continuam a investigar até as folhas repetirem quem são,
mas aqui temos apenas uma calma sem estações,   
e sem história, que é tédio interrompido pela guerra.
A civilização é impaciência, um frenesi de térmitas
em redor dos formigueiros de Babel, antenas transmissoras
e mensagens; mas aqui o caranguejo-eremita acobarda-se quando encontra
uma sombra e pára até a do eremita.
Um medo escuro da minha sombra alongada, confesso,
para este caranguejo escrever “Europa” é ver aquela criança agachada
junto a um canal sujo em Rimbaud, chaminés, e borboletas, pontes antigas
e as manchas sombrias de resignação à volta dos olhos de carvão
de crianças que se parecem todas com Kafka. Treblinka e Auschwitz
descendo o rio com o fumo de barcaças industriais
e a prosa de uma página a que sacudo as cinzas,
os túmulos dos buracos de caranguejo, a ampulheta dos séculos
que passaram sobre esta baía como o pó soprado pelo harmatão
das nossas tribos, dispersando-se sobre as ilhas,
e a lua erguendo-se na sua procura, como a lanterna de Diógenes
sobre a esfinge do promontório, de equilíbrio e justiça.



Derek Walcott
[Trad. ID]

quarta-feira, 6 de junho de 2012

FRUTOS SECRETOS

Emanuel Jorge Botelho, Vigílias do Terceiro Dia (Para o Urbano), Ponta Delgada, Edição do Autor, 2011; Palavras em Busca de Meu Pai, no Endereço que Calculo, Ponta Delgada, Edição do Autor, 2011.


Emanuel Jorge Botelho é, em boa parte por deliberação própria e respeitável, um «poeta invisível». Há vários anos que a maioria das suas publicações têm tiragens limitadíssimas, sendo muitas delas destinadas exclusivamente a ofertas. Ainda assim, convém lembrar que, na década de oitenta, o autor publicou vários livros em editoras de prestígio, como a & etc. ou a Frenesi, o que torna menos compreensível a ausência deste poeta na pretensa e pretensiosa antologia «totalitária» intitulada Poemas Portugueses (Porto, Porto Editora, 2010). Digamos, para abreviar, que Emanuel Jorge Botelho está em boa companhia, pois também não figuram, nessa antologia que supostamente nos oferece o século XX português na íntegra, os nomes de Emanuel Félix, António Barahona ou José António Almeida.
Em 2011, Emanuel Jorge Botelho publicou duas plaquetes, correspondendo cada uma delas a um único poema. São ambas edições fora do mercado, mas isso não constitui motivo para que sejam criticamente ignoradas por quem lhes teve acesso. Vigílias do Terceiro Dia (Para o Urbano) tem, desde logo, a particularidade de a dedicatória ser parte integrante do título. E, para quem não saiba, Urbano tem sido um assíduo companheiro do poeta, em livros tão graficamente irrepreensíveis como Ruídos da Luz (2007), As Flores e as Cinzas (2009) ou Antero de Quental, a Vida e uma Manhã (2010). Mas, aspecto ainda mais relevante, a leitura de Vigílias tem tudo a ganhar se conhecermos a obra plástica de Urbano, com a qual estes versos exemplarmente dialogam. É de assinalar, aliás, que cinco das sete estrofes deste poema são interrogações, que de modo nítido e conciso nos reenviam para o universo artístico de Urbano: «a quantas árvores / deste o nome da terra? // quantas vezes a cor foi, / na tua mão, / a prece lavada / do silêncio do mundo?». Simultaneamente, este belíssimo poema diz-nos muito acerca da poética de quem o escreve, assente, nos seus melhores momentos, nessa obstinação de esculpir, longe do ruído, uma «prece lavada» ou um «segredo branco». Tratando-se de um poema de amizade e homenagem, cuja capa consiste num desenho isolado de Urbano, Vigílias é também um pequeno desdobrável em que a memória das coisas e dos seres se dissipa rumo ao intemporal (ou à «hora de Deus», como sugere a epígrafe de Rilke) que caracteriza, afinal, a grande poesia: «que idade tinhas / quando a primeira árvore / te disse para subires?». Assim, precisamente, termina este breve poema – um dos textos mais marcantes que o ano de 2011 me deu a conhecer.

Palavras em Busca de Meu Pai, no Endereço que Calculo é, por sua vez, um poema dedicado ao pai do poeta, José Maria Botelho (1923-1999). Mas logo percebemos que este luto distanciado – se é que, na morte de um pai, pode alguma vez existir distância – recusa o caminho fácil da grandiloquência ou do pranto derramado. Em vez disso, e lembrando sem dívidas um tom caro ao também açoriano Vitorino Nemésio, as primeiras palavras são de um coloquialismo desarmante: «mais dia, menos dia, José, / apareço por aí, / levado, à boleia, pelo alazão da morte.». A prosódia – seca, contida, mas veemente – é aqui sabiamente cinzelada de estrofe em estrofe, num ritmo tão lírico quanto epistolar: «guarda-me um lugar de alma / a dois palmos da tua mão, / por causa do gume da noite / ou do silvo de cada manhã. // e deixa dormir o meu silêncio / com a face pousada no teu ombro, / enquanto, baixinho, a tua voz / chama pelo nome cada lágrima.». A termos de fazer uma comparação musical, dir-se-ia que esta tensão poética, forte e enxuta, mais depressa se avizinha da rígida introspecção de um Sainte-Colombe do que dos sobressaltos românticos ou da solenidade barroca de Lully e Haendel. A única – e última, aqui – exclamação é sabiamente guardada para o verso final: «boa noite, meu pai!». Pouco mais, entre trevas, se pode dizer a um morto que em nós se tornou imenso.


- Manuel de Freitas
in Cão Celeste, n.º1

sábado, 2 de junho de 2012

AO CREPÚSCULO

Ao atravessar o bosque
vi as seguintes coisas:
um gato, deitado, a olhar para mim;
uma cabana vermelha em que não podia entrar;
o esgar branco da raposa apanhada;
a aranha numa garrafa de leite,
aconchegando a mosca enfaixada,
embalando-a no seu sono;
umas chaves de carro, penduradas numa árvore;
uma fogueira, ainda quente, e um osso
do tamanho do meu braço, o meu nome
gravado nele, com erros.
O cão deixou-me aí,
e eu continuei sozinho.


Robin Robertson
[Trad. ID]
 
Corpo estranho, olhar vazio, duplo não
dizer nada e um cão. Aquela vida toda
sob o peso do entusiasmo, a armadilha
e o cúmulo até à vala negra
de temporariamente excluído.


Rui Baião, Rude,
Lisboa: Averno, 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

28 de octubre de 1935

Si pienso en una lengua y escribo “el perro persigue a una liebre por el bosque” y quiero traducirlo a otra lengua tendré que decir “la mesa de madera blanca hunde sus patas en la arena y muere casi del susto al reconocerse tan [idiota]”


PABLO PICASSO

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A vida é impossível, não importa
o Vicks Vaporub, o que nos fazem
ou o que nos fazemos, se ou quanto.
Desde que o primeiro homem se lembrou
de que não era cão, ficámos condenados
a saltérios e musas e juros com fermento,
à sina de gravatas e aprestos.
Que mal tinha ser cão, além do bem
de comer carne crua e cheirar cus
e vaguear pelas estações do mundo?
Mas não: havia que salar a focinheira
do porco, pôr rosmaninho nas virilhas
e inventar a cadeira rotativa,
moribundelirar amores obtusos
e de tudo intentar a mais-valia,
composta e previdente e pequenina.

Ora, acontece que, seja dia ou noite,
só me apetece ladrar à maresia.


- Miguel Martins
Rodrigo Lira
(1949 – 1981)



C/NSTRUÇÕES


Sobre este cão
Morto
Edificarei
as minhas catedrais
O que mais pecados tenha
pescado que carregue a primeira
pedra
Sobre pedra sobre estas
Areias douradas
edificarão o meu hotel
de cinco estrelas.



(Reproduzido em Informe para extranjeros – Antología de poesía chilena contempoánea; prólogo de María Nieves Alonso; selecção de María Nieves Alonso, Gilberto Triviños, Juan Carlos Mestre e Mario Rodríguez; Diputación de Huelva, 2001, p. 55).



Tradução de Luís Filipe Parrado

quarta-feira, 16 de maio de 2012

                 CÃO



Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparatado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão amarrado, preso a um fio de cheiro,
cão  a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada,
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema…

Sai depressa, ó cão, deste poema!


Alexandre O’Neill,
in ‘Abandono Vigiado’, 1960.


"[...]
Continuemos a lançar as nossas sondas, a falar a uma só voz, com palavras reunidas, e acabaremos por fazer calar todos esses cães, por conseguir que se confundam com a vegetação, observando-nos de olhos turvos, enquanto o vento lhes apaga as costas.
[...]"
René Char
[Trad. ID]

quinta-feira, 10 de maio de 2012

53.

Demasiado tarde para gemer sem
dizer como. Não é a lei que
obriga mas a promessa inscrita
na expectativa dos cães, dos me-
ninos, espécies crentes.


- Maria Velho da Costa, Da rosa fixa

quarta-feira, 9 de maio de 2012

     [...]
     E o texto escreve, na fímbria desse desejo,
que
as vozes dos pássaros e dos cães,
os espongiários do mal-estar,
e a alegria de acordar sobre o alpendre  com o corpo iluminado,
é quanto basta para haver manhã.

     Sem que o medo do fim que vem depois, e nos deixa sozinhos com a chama da vela na paisagem.



Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig 2 - o ensaio de música,
Lisboa: Rolim, 1994

segunda-feira, 7 de maio de 2012



Lipnitzki/Roger Viollet/Getty Images


Louis-Ferdinand Céline avec ses chiens, à Meudon, c. 1955
RUÍDO ÚMIDO


o amanhecer é triste
a lua ainda expulsa
à pia da manhã
os últimos dos cães
vermelho amarelo prata
despertar é despedida
(com um lenço quadriculado
na cabeça, um elegante
sobretudo claro, mirando
algo delicado do outro
lado da rua, as mãos nos
bolsos, rindo, sabemos que ela é
Sylvia Plath, e que, depois de tudo,
a palavra vida não
a levou de volta para casa)
chuto pequenas pedras
observo pequenas trevas
que ainda sobrem nas lacunas
ornamentais e fixo
o desalento


Fabiano Calixto, Sanguínea,
São Paulo: Editora 34, 2007

domingo, 6 de maio de 2012


TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR



Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.


Luís Filipe Parrado, Entre a carne e o osso,
Lisboa: Língua Morta, 2012

terça-feira, 1 de maio de 2012

RETRATO DO ARTISTA EM CÃO JOVEM

Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos

aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra


António José Forte

sexta-feira, 27 de abril de 2012



Luís Miguel Queirós entrevista Vasco Graça Moura

CÃO CELESTE # 1

[…]
Há dois erros profundos: o da novidade a todo o custo e o do racionalismo. Novidade a todo o custo: … perturbador… é um novo Balzac, um novo Victor Hugo… prodigioso… Maupassant ultrapassado… É falso! Cheira a mentira. Porquê? Não é possível ao homem fazer muito de novo. Pelo contrário, muito pouco. A natureza não nos dotou para isso… apenas para fazer pequenas mudanças, nada de especial. No cerne de uma vida, já é imenso. Brassens escreve uma nova canção, percebemos logo que é uma coisa velha. Na Ásia, tudo o que era prático era rejeitado por ser ordinário. Ao passo que nós queremos que tudo seja prático e artificial. A arte é-nos hostil.  
[…]
Para fazer comprar é preciso tornar as pessoas optimistas... comprem um carro novo, novas instalações, contraiam empréstimos. O optimismo da compra. O tipo deprimido ou cínico ou céptico não pode comprar. Estar-se nas tintas para as dívidas, é isso o optimismo...
Então, de "formidável" a "espantoso" a "assombroso", vamos chegando a uma indigestão sem nome. Os outros oitocentos mil lorpas vão tentar ir sempre mais longe. De superlativo em superlativo, teremos um bando de jovens satisfeitos, que fará andar o comércio. Não é muito cómodo dizer isto, mas permite-nos fazer um balanço muito severo e lúcido da época em que vivemos.
[...]

Louis-Ferdinand Céline, “Interview avec Georges Cazal”, 1958
[Trad. ID]

quarta-feira, 25 de abril de 2012

cães: 1




pela estrada de néon

vai em fuga uma matilha de cães

cada um de sua resplandecente cor

cruza os céus numa debandada feliz,

rechaçada pela ira de um deus que trauteia



trauteia uma fuga (os dedos a tamborilar sobre o vermelho das nuvens)

sorri para a linha do poente

sabe que é uma invenção dos cães

dos cães que agora fogem pelo éter



numa queda circular voam os cães

dão voltas à esfera azul

amiúde, cada um para si, choram a ausência dos donos

(os cães vão em fuga pela estrada de néon)




- Alexandre Sarrazola, Thaumatrope, Lisboa: Averno, 2007

domingo, 22 de abril de 2012

PASSEIO SOBRE A CIRCUNFERÊNCIA


No interior do círculo que engloba os seres numa comunidade de interesses e de esperanças, o espírito inimigo das miragens abre um caminho do centro até à periferia. Já não consegue ouvir de perto o bulício dos humanos; quer observar do mais longe possível a simetria maldita que os une. Vê mártires em todo o lado: uns sacificam-se por carências visíveis, outros por necessidades incontroláveis, todos prontos a sepultarem os seus nomes sob uma certeza; e, como nem todos podem lá chegar, a maioria expia pela banalidade esse entusiasmo do sangue com que sonhou... As suas vidas são feitas de uma imensa liberdade de morrer que não souberam aproveitar: inexpressivo holocausto da história, a vala comum devora-os.
Mas, o fervoroso das separações, ao procurar caminhos não frequentados pelas hordas, retira-se para a margem extrema e avança no limite do círculo, que não pode transpor enquanto estiver submetido ao corpo; no entanto, a Consciência paira mais longe, inteiramente pura num tédio sem seres nem objectos. Já não sofrendo, superior aos pretextos que nos convidam a morrer, ela esquece o homem que a suporta. Mais irreal do que uma estrela pressentida numa alucinação, ela propõe a condição de uma pirueta sideral, - enquanto sobre a circunferência da vida a alma se passeia, encontrando-se apenas a si própria e à sua impotência para responder ao apelo do Vazio.


Emil Cioran
in Précis de Décomposition (1949)
[Trad. ID]

sexta-feira, 13 de abril de 2012

[…]


Mais do que forma do conhecimento a poesia é, acima de tudo, modo de vida – e de vida integral. O poeta existia no homem das cavernas, existirá no homem das idades atómicas: porque é parte irredutível do homem. Da exigência poética, exigência espiritual, as próprias religiões nasceram, e por favor poético a centelha do divino vive para sempre no sílex humano. Quando as mitologias desabam, na poesia é que o divino encontra refúgio; talvez mesmo o seu novo fôlego. E até na ordem social e no imediato humano, quando as Portadoras de Pão do cortejo antigo dão lugar às Portadoras de Archotes, na imaginação poética é que vai ainda incendiar-se a elevada paixão dos povos em busca de claridade.

 
[…]


Assim, por adesão total àquilo que é, em vossa intenção o poeta mantém-se ligado à permanência e à unidade do Ser. E a sua lição é de optimismo. Para ele, uma só lei de harmonia dirige todo o mundo das coisas. Nada ali pode acontecer que exceda, por natureza, a medida humana. As piores perturbações da história não passam de ritmos sazonais num mais vasto ciclo de encadeamentos e renovações. E as Fúrias, que atravessam a cena de archote erguido, só por um momento iluminam o vastíssimo tema em curso. De forma alguma as civilizações que amadureceram morrem das angústias de um outono, limitam-se a mudar. Só a inércia é ameaçadora. Poeta é o que rompe em nossa intenção o hábito.


[…]


E chega, ao poeta, ser a má consciência do seu tempo.


Saint-John Perse, Pássaros,
trad. Aníbal Fernandes,
col. “Cão Vagabundo”, Lisboa: Hiena, 1994