CINCO VOOS LÁ NO ALTO

Ainda é escuro.
O pássaro desconhecido pousa no seu ramo habitual.
O cãozinho da porta ao lado ladra surante o sono
interrogadoramente, apenas uma vez.
Talvez no seu sono, também, o pássaro se interrogue
uma ou duas vezes, inseguro.
Perguntas - se é isso que são -
respondidas directamente, simplesmente,
pelo próprio dia.

Manhã enorme, laboriosa, meticulosa;
uma luz cinzenta iluminando cada ramo despido,
cada rebento isolado, de um dos lados,
fazendo uma outra árvore de veios vítreos...
O pássaro ainda está lá. Parece bocejar.

O cãozinho preto corre no seu pátio.
A voz do dono eleva-se, ríspida:
"Devias ter vergonha!"
Que fez ele?
Pula de alegria;
Lança-se em círculos no meio das folhas caídas.

É óbvio que não tem vergonha nenhuma.
Ele e o pássaro sabem que tudo tem resposta,
tudo está programado,
sem necessidade de fazer uma nova pergunta.
- Ontem trazido para hoje tão facilmente!
(Um ontem que julgo quase impossível de se emergir.)


Elisabeth Bishop
[Trad. Maria de Lourdes Guimarães]
 

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