A ASSOMBRAÇÃO


Eu sou o cão que tu puseste a dormir,
como gostas de chamar à agulha do esquecimento,
e volto para te dizer esta coisa simples:
nunca gostei de ti - nem por um momento.

Quando lambia o teu rosto,
pensava em morder-te o nariz.
Quando via como te secavas com uma toalha,
apetecia-me saltar e castrar-te num instante.

Detestava a maneira como te movias,
a tua falta de graça animal,
a maneira como te sentavas numa cadeira para comer,
com um guardanapo no colo e a faca na mão.

Eu teria fugido,
mas era muito fraco, um truque que me ensinaste
quando ainda estava a aprender a sentar e a deitar,
e - o maior dos insultos - a apertar a mão sem ter uma.

Admito que a visão da trela
me entusiasmava
mas apenas por que significava que estava prestes
a cheirar coisas que nunca tinhas tocado.

Podes não querer acreditar nisso,
mas não tenho nenhuma razão para mentir.
Odiava o carro, os brinquedos de borracha,
detestava os teus amigos e, pior, os teus familiares.

O tilintar da minha chapa levava-me à loucura.
Sempre me fizeste festas no sítio errado.
Tudo o que sempre quis de ti
foi comida e água fresca nas minhas tigelas de metal.

Enquanto dormias, ficava a ver-te respirar
à medida que a lua ia subindo no céu.
Foi precisa toda a minha força
para não levantar a cabeça e uivar.

Agora estou livre da coleira,
da gabardina amarela, da camisola com monograma,
do absurdo do teu relvado,
e isso é tudo o que tu precisas de saber sobre este lugar

excepto o que já calcularas antes
e te deixa feliz porque não aconteceu mais cedo -
que todos aqui conseguem ler e escrever,
os cães em poesia, os gatos e os outros em prosa.


Billy Collins, Amor Universal,
trad. Ricardo Marques, Lisboa: Averno, 2014

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