A EITO


Cada verso começa com uma maiúscula
Cada verso é um portal

KILGORE TROUT JR.


Escrevo a eito
Até fazer uma lombada mínima
Assim começo

Nada aqui é fingimento ó pé-de-salsa
Nem o que deveras sinto

Ocupo a clareira da poesia
Para fumar um cigarro em paz

Aí, no bravio descampado
Por minha conta
Estendo-me como uma asa
Ao tráfico da carne

E enquanto travo o fumo cinzento
Procuro palavra a palavra
Outra coisa

Um cão ao sol
Um caderno sensível abandonado num campo

Que alumie no regresso a casa
Os lugares escuros do quarto
E afaste a manhã conformada
Atrás da porta

Para onde não haja nem palha nem grão
Nem bafinho de menino
Ou galo a cantar.


João Almeida, Hotel Zurique,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos, 
Lisboa, Averno, 2017



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