ACORDEÃO


Pedir de mãos vazias é demasiado
triste. Talvez por isso, chegou a tocar
acordeão. Uma velha melodia
incapaz de ser alegre,
ainda que nos lábios um sorriso,
olhos apontados em direcção incerta.
O cão parece sentir a mesma coisa,
enrolado agora a um canto do tapete.

É dia de S. Valentim, com letreiro afixado
na montra, o problema da poesia frouxa
está oficialmente controlado. De repente
precisamos de todo o espaço
que vai da garganta ao coração,
esquecemo-nos da conversa
com que estávamos para aqui
a libertar o tempo e a prender ideias.

Mas é a realidade que muda
ou somos nós? É espantoso
o que uma pequena melodia consegue fazer.
Às vezes é preciso ficar só,
com os nossos próprios medos,
ser capaz de suportar a escuridão.
E na terra expropriada construir
novos edifícios. Quando já não doer tanto.


Vítor Nogueira, Comércio Tradicional,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa: Averno, 2008



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